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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Refletindo sobre nossa situação da época, penso que ela escolheu aquele local,
porque era mais reservado; Lá era o espaço dela, onde podia desabafar, pensar,
quem sabe até às vezes chorar, sem que nós percebêssemos. A escuridão dentro
de casa - devido à falta de eletricidade - contribuía ainda mais para esconder as
emoções da minha mãe. Alheio a tudo isso, eu e meus irmãos brincávamos,
fazendo a maior algazarra na sala. Contando histórias e balançando na rede que
ficava no centro do cômodo. Todos na expectativa da luz retornar, para que
pudéssemos dar o nosso grito de praxe, apostando quem gritaria mais alto, em
comemoração à chegada da eletricidade. Nem se quer imaginávamos que eram
tempos difíceis.
Apesar de às vezes faltar o pão, o amor e o companheirismo em nossa
família sempre esteve presente. Meus pais até hoje estão casados, são mais de
40 anos juntos. O que nos dias de hoje é quase um milagre. De lá pra cá, minha
família cresceu, meus pais tiveram mais duas meninas. Meus irmãos já estão
todos casados, dando a felicidade a meus pais com netos e netas, possuem bons
empregos, e escolaridades bem elevadas. Penso que apesar da infância e
educação humilde que tivemos, soubemos contornar a situação com garra e
sermos vencedores.
Protegendo a chama da vela com a palma da mão, dirijo-me até a sala,
onde deixo o copo com a vela, em um local alto. Para que a claridade se espalhe
por todo o interior do cômodo. Sento no sofá ainda com aquele sentimento de
nostalgia, quando de repente a luz retorna. Meus olhos ardem com a luz branca
irradiada pelas lâmpadas do tempo, e inconscientemente, encho meus pulmões
de ar, e dou um grito de comemoração. Acho que dessa vez eu ganharia dos
meus irmãos.
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