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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
tomar banho e preparar o jantar, com consciência da dificuldade que seria
realizar essas simples atividades no breu da noite. De tantas vezes faltar energia,
considerávamos normal, era algo a se esperar, fazia parte de nossa rotina. E
sempre quando a energia retornava, comemorávamos dando gritos de alegria e
satisfação. Esses momentos eram bem alegres e engraçados, pois escutávamos a
rua inteira comemorando, semelhante quando a seleção fazia um gol na rival,
nos anos de copa do mundo. Nessas noites, para variar sem energia. Lembro de
minha mãe, dentro do quarto olhando pela janela, observando a noite e a rua
com o olhar perdido, como se esperasse a todo o momento alguém virar a
esquina - naquela época minha mãe era super magra - esse alguém era o meu
pai. Ele trabalhava em um garimpo do interior do estado. Lembro que na época,
quase todos os pais dos meus amigos se aventuravam na busca do ouro para
trazer o sustento a seus lares. Era uma profissão muito difícil, pois além de
desgastante, meu pai era obrigado a constantemente viajar para o local, onde
estava sendo extraído o minério. Às vezes, ficava meses fora de casa, e o único
contato era por meio de conhecidos, que voltavam antes do meu pai, ou então
pelo envio de cartas. E em todas as noites minha mãe - sempre forte e otimista –
esperava meu pai voltar olhando pela janela, torcendo que a viajem tenha sido
um sucesso, que não tenha acontecido nenhum acidente nas estradas e que
tenha conseguido trabalhar o suficiente para trazer o sustento da casa. Com toda
calma e paciência ela o esperava, dia após dia, cuidando de mim e de meus
outros 03 irmãos. Até hoje não sei como eram as atividades no garimpo, meu pai
sempre foi um homem de poucas palavras. Sempre que retornava trazia algum
dinheiro. Como na época eu não entendia muito o valor do dinheiro, não sei
informar a quantia exata que ele recebia. Posso deduzir que a quantia não era
das melhores, pois vivíamos “apertando o cinto”, economizando cada centavo,
até que meu pai retornasse novamente. Enquanto ele não retornava, lá estava
minha mãe observando pela janela. Minha mãe apenas interrompia esse ritual,
quando ele chegava.
Agora sentando no sofá, fico imaginando, porque minha mão esperava em
pé olhando pela janela, sozinha? Por que não sentada ou deitada na cama?
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