Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Seite 89

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 tomar banho e preparar o jantar, com consciência da dificuldade que seria realizar essas simples atividades no breu da noite. De tantas vezes faltar energia, considerávamos normal, era algo a se esperar, fazia parte de nossa rotina. E sempre quando a energia retornava, comemorávamos dando gritos de alegria e satisfação. Esses momentos eram bem alegres e engraçados, pois escutávamos a rua inteira comemorando, semelhante quando a seleção fazia um gol na rival, nos anos de copa do mundo. Nessas noites, para variar sem energia. Lembro de minha mãe, dentro do quarto olhando pela janela, observando a noite e a rua com o olhar perdido, como se esperasse a todo o momento alguém virar a esquina - naquela época minha mãe era super magra - esse alguém era o meu pai. Ele trabalhava em um garimpo do interior do estado. Lembro que na época, quase todos os pais dos meus amigos se aventuravam na busca do ouro para trazer o sustento a seus lares. Era uma profissão muito difícil, pois além de desgastante, meu pai era obrigado a constantemente viajar para o local, onde estava sendo extraído o minério. Às vezes, ficava meses fora de casa, e o único contato era por meio de conhecidos, que voltavam antes do meu pai, ou então pelo envio de cartas. E em todas as noites minha mãe - sempre forte e otimista – esperava meu pai voltar olhando pela janela, torcendo que a viajem tenha sido um sucesso, que não tenha acontecido nenhum acidente nas estradas e que tenha conseguido trabalhar o suficiente para trazer o sustento da casa. Com toda calma e paciência ela o esperava, dia após dia, cuidando de mim e de meus outros 03 irmãos. Até hoje não sei como eram as atividades no garimpo, meu pai sempre foi um homem de poucas palavras. Sempre que retornava trazia algum dinheiro. Como na época eu não entendia muito o valor do dinheiro, não sei informar a quantia exata que ele recebia. Posso deduzir que a quantia não era das melhores, pois vivíamos “apertando o cinto”, economizando cada centavo, até que meu pai retornasse novamente. Enquanto ele não retornava, lá estava minha mãe observando pela janela. Minha mãe apenas interrompia esse ritual, quando ele chegava. Agora sentando no sofá, fico imaginando, porque minha mão esperava em pé olhando pela janela, sozinha? Por que não sentada ou deitada na cama? 84