Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 80

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 já estavam completamente pintadas de puro vermelho, e todo aquele cheiro de sangue tirava-lhe o fôlego, comprimindo sua garganta com verdadeiro horror. Alcançou, com muita pressa, a pia logo à frente e deixou a água escorrer violentamente. Grande foi a surpresa ao perceber que a dor, o sangue e os rasgos de suas mãos e pulsos sumiam assim que entravam em contato com o líquido, sem deixar sinal ou cicatriz. "Só as águas acalmam". Lembrou que escrevera alguma coisa do gênero em um poema apenas algumas semanas atrás, em um papel amassado encontrado jogado sobre o criado-mudo do quarto. Correu até a banheira, enfiou-se em seu interior e ligou a água fria. Conforme o líquido subia, alívio e êxtase percorriam suas veias. A água gelada limpava seus machucados, sarava suas feridas e a confortava com beijos. As flores de seu jardim tornaram-se exuberantes e intensas novamente, assim como o fazem na primavera. A temperatura baixa resfriava seu corpo e adormecia sua mente com cantigas de ninar. Recebeu um convite para um sono profundo, e foi ter com Morfeu, ao toque das papoulas. Enquanto refugiava-se dentro de si mesma, uma suave corrente elétrica cortava caminho por entre dois pontos de seu cérebro, e causava-lhe uma impressão confusa. Um zumbido elétrico ecoava levemente ao pé do ouvido, e mesmo quando mergulhava sua cabeça completamente para dentro da água, o barulho permanecia inabalável. Já na terra dos sonhos, boiava, inerte, sobre um extenso oceano gelado, cujos limites sumiam do alcance da visão. O céu estava repleto por nuvens, e o sol brilhava timidamente no horizonte. Demorava-se em uma devota contemplação daquele astro, seu deus, quando notou que ele tornava-se, a cada instante, mais vivo. Seus raios, até então fracos e impotentes, intensificavam-se majestosamente. Acompanhando essa transição, o clima ao redor tornava-se mais e mais temperado, assim como as águas aqueciam-se prontamente. Os raios incidiam impiedosamente sobre sua pele exposta, onde formavam com muita pressa tumores acinzentados, que cresciam como uma massa fermentada. "Só as águas acalmam". Mergulhou dessa vez todo o seu corpo radioativo no fundo do mar, em busca de proteção. Lá embaixo o oceano havia perdido toda a vida. O assoalho marinho tornara-se um necrotério de corpos coloridos de todas as formas, as cores anunciando a vida que uma vez existira naquele lugar agora tão sombrio. Em meio àqueles corpos sem vida nadava ainda um único peixe. Achatado e em forma de disco, com contrastantes faixas em preto, branco e amarelo, e uma longa barbatana dorsal; uma visão perfeitamente singular. Seguiu implacável em sua direção, até posicionar-se em frente ao seu rosto e dizer-lhe as seguintes palavras, em um tom penetrante: "Vá, a vida está se esvaindo, sua viagem astral termina aqui". Ao abrir os olhos percebeu que ainda estava submersa dentro da banheira. Sobrelevou-se com um salto e engoliu largas golfadas de um ar cortante, demorando ainda alguns segundos para recuperar o fôlego. 75