Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | 页面 79

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Jardim Marcella Pires Goiânia/GO Chegou bêbada em casa naquela manhã do sábado mais frio, chuvoso e melancólico do qual sua memória guardava lembranças. Bêbada, drogada e triste, seguiu com muita pressa rumo ao banheiro do segundo andar, subindo a larga escada de madeira disposta na sala daquela casa imensa. Chegando ao banheiro, retirou suas roupas sujas e encharcadas de álcool, mantendo-se muda enquanto observava por alguns largos minutos a juventude do reflexo de seu corpo nú, guardado ali, dentro daquele espelho inerte, semelhante a um lago estagnado de prata. À exceção de um coração steampunk tatuado em seu peito esquerdo, todo seu corpo era coberto por flores (rosas, tulipas, gérberas, crisântemos...), cravadas com tinta colorida bem no fundo da sua pele pálida. Ela era um buquê, e cheirava a primavera e álcool. Já era de praxe ouvir muitos comentários indelicados acerca das suas numerosas tatuagens, sempre acompanhados de olhares cínicos e mal-encarados. "Meu corpo não quer sua opinião", era o que invariavelmente dizia. Enquanto contemplava seus seios fartos no espelho, os quais sempre rendiam-lhe algumas bebidas grátis nos bares da vida, sua cabeça deu alguns giros, a tontura tentando puxá-la bruscamente para baixo. O coração no peito direito do reflexo deu um salto de súbito. A cada pulo, um penetrante sibilo ecoava pelo cômodo. A tatuagem movimentou-se ainda em mais 12 sístoles e 13 diástoles ritmadas, até se imobilizar por completo em sua carne. Sentiu, por fim, umas pontadas agudas na cabeça e, logo em seguida, o som d