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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Jardim
Marcella Pires
Goiânia/GO
Chegou bêbada em casa naquela manhã do sábado mais frio, chuvoso e
melancólico do qual sua memória guardava lembranças. Bêbada, drogada e
triste, seguiu com muita pressa rumo ao banheiro do segundo andar, subindo a
larga escada de madeira disposta na sala daquela casa imensa. Chegando ao
banheiro, retirou suas roupas sujas e encharcadas de álcool, mantendo-se muda
enquanto observava por alguns largos minutos a juventude do reflexo de seu
corpo nú, guardado ali, dentro daquele espelho inerte, semelhante a um lago
estagnado de prata. À exceção de um coração steampunk tatuado em seu peito
esquerdo, todo seu corpo era coberto por flores (rosas, tulipas, gérberas,
crisântemos...), cravadas com tinta colorida bem no fundo da sua pele pálida. Ela
era um buquê, e cheirava a primavera e álcool. Já era de praxe ouvir muitos
comentários indelicados acerca das suas numerosas tatuagens, sempre
acompanhados de olhares cínicos e mal-encarados. "Meu corpo não quer sua
opinião", era o que invariavelmente dizia. Enquanto contemplava seus seios
fartos no espelho, os quais sempre rendiam-lhe algumas bebidas grátis nos bares
da vida, sua cabeça deu alguns giros, a tontura tentando puxá-la bruscamente
para baixo. O coração no peito direito do reflexo deu um salto de súbito. A cada
pulo, um penetrante sibilo ecoava pelo cômodo. A tatuagem movimentou-se
ainda em mais 12 sístoles e 13 diástoles ritmadas, até se imobilizar por completo
em sua carne. Sentiu, por fim, umas pontadas agudas na cabeça e, logo em
seguida, o som d