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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
peixes com mais facilidade. Armou-a e voltou para esperar a rede se encher de
peixes. Deu um tempo e ouviu uma grande movimentação no local onde havia
estendido a armadilha, vez que a escuridão não o deixava ver nada. Percebendo
os movimentos, partiu pra lá, pra ver o que estava acontecendo, quando se
deparou com uma grande sucuri que havia entrado na rede para comer os
peixes presos na mesma. A cobra ao sentir a presença do pescador, cuidou-se
em desvencilhar-se da mesma, a qual ficara em situação deplorável e sem
nenhum peixe. De imediato ele cuidou em recolher o que havia sobrado da e
voltou para casa, para a luz de lamparina (vela), tentar remendá-la.
Quando chegou a casa estavam todos acordados à espera de algum
alimento, o ambiente de expectativa de repente transformou-se numa desilusão
profunda ao ouvir a notícia da fracassada pescaria.
Apesar de tudo, o Sr. Pedoca não perdera as esperança, cuidou em
encontrar os materiais, como linha, agulha, sovela, faca, para remendar a rede
que a cobra havia rasgado. E ele ali sentado pôs a remendar a rede, ficando na
sala apenas o Matheus, o penúltimo dos filhos que contara apenas 4 aninhos,
sentadinho do outro lado da sala, encostado na parede, quase de cócoras, com
as mãos segurando as pernas, a observar o trabalho do pai. Enquanto que os
demais irmãos haviam se acomodados em seus respectivos lugares habituais de
dormirem todas as noites. De repente aparece Dona Virtu, que por conta do
desespero de ver a fome atormentar seus filhos, pois sempre é a mãe a mais
cobrada, por ser ela a que fica mais em casa e que no entendimento das
crianças é ela a responsável pela comida pronta. Então passou a transferir com
palavras essa “culpa” ao seu marido. E ele caladinho fazendo o seu serviço para
ao concluí-lo retornar à lagoa e tentar novamente conseguir o tão almejado
jantar. E sua companheira continuou a falar, coagindo-o sem trégua, numa
pressão sem fim. Quando de repente ele se levantou com a faquinha afiada que
a utilizava para cortar as pontas de linha de nylon e perguntou acintosamente: -
Virtu, carne serve? – Passou a faca na sua própria coxa que o sangue espirou!
-A criança que observava o trabalho do pai e assistiu o fato, correu para
cima chorando em estado de desespero. Os outros filhos se levantaram todos, e
foram ver o que havia acontecido. Dona Virtu em estado de choque, sem saber
o que fazer começou a chorar e pedir desculpas!
O menino que quietinho no canto da sala que observava seu pai fazer o
trabalho de remendo da rede, era um dos personagens desta história, que ao
lembrar começou a chorar, então o pedi para não continuar o relato, pois não
vale à pena sofrer por um passado triste. Suas últimas palavras sobre o assunto
foram às seguintes: “(...) desde esse trágico episódio, nunca deixei de trabalhar
um dia sequer, e sempre me dediquei a ajudar meus pais, para nunca mais uma
sena desse tipo se repetir diante de mim!”.
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