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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
História que ouvi contar…
Gilberto Moura
São Luis/MA
O que a fome é capaz não tem limite
Nas estradas que percorri ouvi muitos relatos de fatos ocorridos na vida das
pessoas, dentre os quais alguns me comoveram, como o que vou contar aqui.
No sertão do Piauí uma família composta pelo casal e mais seis filhos
pequenos, onde o último aproximava-se aos 2 anos e o primeiro não havia
chegado aos 12 anos. Crianças com idades seqüenciais com intervalos de 1 a 2
anos, tipo “escadinha”, como se diz no nordeste.
Família humilde que dependia unicamente do trabalho “braçal” do pai, pois
a mãe tinha como atividade única, que por sinal, muito laboriosa, cuidar da casa
e dos filhos, serviços que ia desde pegar a lenha no roçado, para colocar na
trempe para cozinhar a alimentação de toda a família; ao cuidado da higiene de
todas as crianças, das quais, quatro eram meninas e dois meninos.
O senhor Pedro muito trabalhador, homem disposto e prendado nas
atividades rurais, fazia de tudo para dá co nta da alimentação. Plantava de tudo
no seu roçado: mandioca, milho, arroz quando o chovia bem, tinha muita
fartura, mas nem todos os anos o “inverno” era bom o suficiente para ter uma
boa colheita para atender a demanda da família, durante o ano inteiro até
chegar a nova safra.
A Dona Virtu, como se chamava a mãe da criançada, pois seu nome mesmo
era Maria Virtuosa. Para dá conta da casa, acordava às cinco da manhã e só ia
dormir quando a última criança já estava acomodada em sua rede, já bem tarde
da noite.
Devido às dificuldades, muitas vezes impostas pela própria natureza, região
do semiárido, com a escassez de chuvas, a alimentação das crianças
invariavelmente, ficava comprometida e o seu Pedoca tinha que se virar para
não deixá-las com fome, e com a consciência de sua responsabilidade, pegava a
rede de pesca, a tarrafa e ia aventurar algum peixe para resolver em parte, a
fome que rondava a sua família.
Um dia ao chegar a casa estava uma tristeza só, pois não tinha nada para
as crianças comerem, então ele foi ao quarto onde guardava todos os seus
materiais de trabalho, já era mais de 20h, embora noite sem luar, se mandou
para a lagoa com uma rede de pesca já bastante puída pelo tempo. Ao chegar
pegou o coxo e atravessou para o outro lado, pois lá era comum encontrar
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