Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Seite 81

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Só então notou que a temperatura da água havia se elevado excessivamente, de algum modo misterioso, e agora fervia suas pernas e quadris, que ainda se encontravam imersos. Retirou-se com pressa de lá, buscou a toalha pendurada na parede ao lado e cobriu seu corpo com ela. "Mas o que diabos está acontecendo?" Voltou, desnorteada, seu olhar novamente para a banheira, e mais uma vez faltou ar em seus pulmões. Fez, novamente, a si mesma a pergunta de agora a pouco, só que, dessa vez, com mais desespero, e com uma voz ainda mais vacilante. Ali dentro, imersas, haviam se materializado, inexplicavelmente, dezenas e dezenas de flores, brancas, vermelhas, rosas, roxas e azuis. A água já não era mais límpida, estava suja com a essência das cores, que, juntas, formavam algo próximo ao púrpuro. Em um ímpeto, atirou a toalha ao chão, ainda impregnado de sangue e, aterrorizada, procurava por suas tatuagens, que não estavam mais ali. Nenhuma. Não deixaram nem marcas. Sua pele agora era limpa, sem graça e macilenta. Chorou por causa de suas flores perdidas. Por causa do seu eu que se perdia para sempre naquele momento. Estava agora de joelhos, inclinada sobre a banheira, e tentava, com a esperança de uma criança, pregar algumas das rosas e crisântemos de volta à pele, mas isso de nada adiantava, elas se foram. Que angústia... precisava colocar um fim a todo aquele sofrimento. Pousou a mão direita sobre o peito esquerdo, e notou que seu coração também já não estava mais lá. Seguindo a lógica irracional dos últimos acontecimentos, ele devia estar ali, nas águas, em algum lugar escondido por tantas pétalas. Enfiou as duas mãos por entre elas, tateando e despedaçando várias, até que sentiu um músculo, ocultado por diversas lágrimas de cristo brancas amontoadas em um canto. Era seu coração, seu própri o coração, batendo, vacilante, em sua mão esquerda. Os olhos marejados miravam aquilo surpreendidos. "Não faça isso, é um caminho sem volta". Mas ela queria, precisava, mais do que tudo, pois já não era mais a mesma. Tinha que ir embora. "Para sempre, sempre, sempre..." ecoava entre as quatro paredes, cantado por macias vozes desconhecidas. Cravou, inicialmente, apenas suas unhas compridas dentro daquela carne. Depois, introduziu seus dedos por completo, até que ela parasse de bater, e o mundo ficasse negro. A partir daí, sua alma estava entregue à overdose, que a levou consigo para um lugar de onde não se volta. Nunca mais. https://atabularosa.wordpress.com 76