Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 70

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 “Porque é uma música perigosa. Se nos pegarem ouvindo isso, vamos para o xilindró.” “E se o pai souber?” perguntamos amedrontados com a possibilidade de nossa mãe ver o sol nascer quadrado. “Ele só vai saber se vocês contarem ou se cantarem a música em casa.” Como meu pai só gostava de música clássica e não permitia que cantássemos em sua presença, não seria um grande problema. “Venham, vamos ouvir a música, mas vou colocar bem baixinho.” Ouvimos a música várias vezes, e assim como as músicas dos Secos e Molhados, logo aprendemos essa nova canção proibida. Ainda a canto hoje em dia; e bem baixinho, como de costume – “Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Bem baixinho... Minha mãe correu para a porta ao ouvir a campainha ao mesmo tempo que fez um final para que abaixássemos o volume estridente da vitrola que tocava um LP dos Secos e Molhados. Belo Horizonte, anos 70, no auge da ditadura militar. Meus dois irmãos mais novos, vestidos de Ney Matogrosso, pararam de dançar a música “O vira” assustados com a exortação da nossa mãe. _ Silêncio! Deve ser um vizinho reclamando do som alto. Vou ver quem é. Mamãe abre apenas uma fresta da porta, conversa alguns minutos com alguém e fecha a porta trazendo com ela um outro LP. _ Que é isso, mãe? perguntei. _ Um disco novo. Ela titubeou. _ Podemos ouvir agora? Queremos dançar, perguntou um dos meus irmãos. _ Acho que agora não dá. Seu pai vai chegar daqui a pouco. _ Mas mãe, se o pai chegar não vamos mais poder ouvir nada. Ele não gosta de música, só música chata sem letra, argumentei. 65