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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
_ Não essa música. Muito perigoso ouvir essa música agora. Se seu pai chega...
_ Mas ainda falta um tempo para ele chegar. A gente desliga quando ouvir o
barulho da carro dele na garagem.
_ Que chateação vocês! Já disse que agora não dá. Vamos esperar até amanhã.
Seu pai não iria gostar nada dessa música.
_ Aposto que é porque o tio é da polícia. Se a música não for boa, a polícia pode
prender a mãe, ponderei, pois já tinha ouvido o tio coronel militar dizendo que
certas músicas e livros eram proibidos e quem as ouvia levava choque na bunda
no quartel e ficava preso numa cela escura.
_ Deixem de história! Calados. Vamos ouvir amanhã e ponto final. Mas não fale
nada para seu pai do disco. Não contem nada dessa história. Ele vai bater em
vocês, ela nos alertou.
Fomos dormir chateados. De manhã, quando ouvimos o pai sair, corremos para a
sala e ligamos a vitrola.
_ Mãe, já ligamos a vitrola. Vamos logo ouvir a música, eu disse.
_ Tá bom, mas essa música só podemos ouvir bem baixinho.
Ela pega o disco, coloca na vitrola, abaixa o volume. Nos assentamos próximo ao
aparelho e atentamente ouvimos a tão perigosa música, cantem baixinho, bem
baixinho; e aprendemos a letra que nunca cantaríamos na frente do meu pai.
“Vem vamos embora que esperar não é fazer, quem sabe faz a hora não espera
acontecer... caminhando e cantando, seguindo a canção...” Bem baixinho!
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