Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 69

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Filhos da Ditadura Luisa Costa Cisterna Calgary/Alberta – Canadá As histórias da infância de quem ainda não cresceu nunca serão tão estapafúrdias quanto as dos que foram criados no cenário da Ditadura. Deus é testemunha que meu tio coronel dizia para seus filhos e sobrinhos – eu sendo um deles, - que essa coisa de tortura não passava de uns choquinhos no traseiro. De qualquer forma, os adultos de bom senso tinham o cuidado de evitar tocar em materiais impuros, segundo o critério de impureza dos censores da ditadura. Eu e meus irmãos vivíamos nessa época de forma despreocupada; sabíamos o Hino Nacional, o da Bandeira e da Independência de cor e salteado, nossa contribuição para com a ordem e progresso. Além dos Hinos, sabíamos de cor as músicas dos Secos e Molhados. Minha mãe pintava o rosto dos meus irmãos a la Ney Matogrosso e juntos dançávamos alucinados na sala de casa “o gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada” até que meu pai chegasse do trabalho. No momento em que ouvíamos o carro chegar na garagem, os Secos e Molhados recolhiam-se à sua insignificância. Silêncio! Mas um dia, entre rebolados e requebros ao som de “O Vira,” a campainha de casa tocou. Suspeitando ser um vizinho reclamando da vitrola alta, minha mãe abaixou o som e nos pediu que ficássemos quietos. Obedecemos. Ela abriu apenas uma fresta da porta, cochichou com alguém e lentamente fechou a porta, mas trazendo nas mãos um LP (para os mais novos, um LP é uma versão rudimentar do CD, mas não tenho tempo para dar detalhes sobre a vida antes do Google). “Venham aqui,” disse ela em um sussurro para nós. “Comprei este LP. Vamos ouvir, mas não contem para seu pai.” “Por que não, mãe?” quisemos saber. 64