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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Filhos da Ditadura
Luisa Costa Cisterna
Calgary/Alberta – Canadá
As histórias da infância de quem ainda não cresceu nunca serão tão estapafúrdias
quanto as dos que foram criados no cenário da Ditadura. Deus é testemunha que
meu tio coronel dizia para seus filhos e sobrinhos – eu sendo um deles, - que
essa coisa de tortura não passava de uns choquinhos no traseiro. De qualquer
forma, os adultos de bom senso tinham o cuidado de evitar tocar em materiais
impuros, segundo o critério de impureza dos censores da ditadura.
Eu e meus irmãos vivíamos nessa época de forma despreocupada; sabíamos o
Hino Nacional, o da Bandeira e da Independência de cor e salteado, nossa
contribuição para com a ordem e progresso. Além dos Hinos, sabíamos de cor as
músicas dos Secos e Molhados. Minha mãe pintava o rosto dos meus irmãos a la
Ney Matogrosso e juntos dançávamos alucinados na sala de casa “o gato preto
cruzou a estrada, passou por debaixo da escada” até que meu pai chegasse do
trabalho. No momento em que ouvíamos o carro chegar na garagem, os Secos e
Molhados recolhiam-se à sua insignificância. Silêncio!
Mas um dia, entre rebolados e requebros ao som de “O Vira,” a campainha de
casa tocou. Suspeitando ser um vizinho reclamando da vitrola alta, minha mãe
abaixou o som e nos pediu que ficássemos quietos. Obedecemos. Ela abriu
apenas uma fresta da porta, cochichou com alguém e lentamente fechou a porta,
mas trazendo nas mãos um LP (para os mais novos, um LP é uma versão
rudimentar do CD, mas não tenho tempo para dar detalhes sobre a vida antes do
Google).
“Venham aqui,” disse ela em um sussurro para nós. “Comprei este LP. Vamos
ouvir, mas não contem para seu pai.”
“Por que não, mãe?” quisemos saber.
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