Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Página 68

LiteraLivre n º 8 – Mar / Abr de 2018
Eu seria aquela mulher que, sentada á minha frente, diria que passara uma vida inteira tentando ser alguém, tentando chamar atenção das pessoas, querendo ainda a proteção dos pais, que ao invés de protegê-la quando precisava, deixavam-na de castigo, isolando-a ainda mais.
Ainda agora, adulta, eu queria ser protegida do mundo, das pessoas más, dos maus conselhos, dos monstros que teimam em perturbar meu sono, dos fantasmas que ainda gritam ao meu ouvido que eu não sou ninguém nem nunca chegarei a ser.
Eu seria aquela mulher desesperada que, aos prantos, diria-me que não dava conta de cuidar dos filhos, nem da casa, pois quem precisava de cuidados era ela, quem precisava de atenção, conselhos, distrações, que contassem histórias antes de dormir, que a protegessem dos homens perversos, que cuidassem da sua alimentação e dissessem todo dia o quanto ela é importante e que jamais a abandonariam, que seriam seus pais para sempre, independentemente do que ela fizesse na vida era ela. Não conseguira ser mãe, nem esposa, nem amiga, era ainda a menina que precisava de cuidados e atenção.
As pessoas procurariam minha ajuda e tudo que eu desejaria era estar no lugar dessas pessoas, desabafando, contando meus medos, minhas aflições. Não queria ouvir o que as pessoas teriam a dizer, queria somente falar, mas não tinha ninguém para escutar. Sendo assim, melhor ser professora mesmo. Assim, criaria uma realidade diferente, junto aos alunos. Daria textos, como contos de fadas, em que todas as crianças tinham um lar, eram amadas e felizes. Contaria a eles histórias irreais, tais quais ela gostaria que tivesse existido. Ensinaria-os tudo o que ela gostaria de ter aprendido e, mais do que uma professora, seria amiga, não deixando que ninguém os fizesse mal. Inventaria histórias só para fazê-los rir.
E, assim, viveria de tal forma que ninguém a descobriria, tentaria dar o melhor de si, mesmo desejando não estar ali e saindo exausta, como quem deixa para trás um personagem e precisa agora estar de volta à vida real.
E na vida real, tudo que ela menos queria era ser professora, mas ali estava, por falta de opção e por não saber, na verdade, onde realmente desejava estar.
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