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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Fantasia
Clarice de Assis Rosa
Ituiutaba/MG
Nunca quis ser professora. Admirava a profissão, mas acreditava que, para
ser, era necessário ter-se o “dom” de ensinar e eu não o tenho;nem o dom,
tampouco boa vontade para tal.
Por falta de opção, estudei Pedagogia. Não sabia ao certo o que queria da
vida, e minhas cogitações eram rapidamente anuladas por pessoas que não me
julgavam capaz de exercer outra profissão considerada de maior dificuldade.
Quando criança, desejava muito ser médica, sonho de muitos que não sabem
ainda o que querem. Na adolescência, pensava em ser psicóloga, admirava a
capacidade que esses profissionais têm de conseguirem ajudar as pessoas a
conhecerem a si mesmas, a ouvi-las sem julgamentos. Até hoje admiro, porém,
para eu ajudar alguém, seria necessário, antes, ajudar a mim mesma.
Tenho muitas incertezas, muitas angústias e um vazio que parece não ter fim.
Certamente, se eu fosse psicóloga, identificaria-me com cada um que chegasse
em meu consultório relatando que não sabia o sentido da sua vida, não sabia que
direção tomar em diversos aspectos. Identificaria-me com o paciente que não
sabia perceber se determinadas atitudes tomadas eram consideradas certas,
erradas ou precipitadas demais .
Como conseguiria ajudar alguém, se em cada consulta, inevitavelmente, traria
à mente todo o meu passado, toda a minha história. Como ouvir calada o relato
de um adolescente revoltado, que se julgava injustiçado por ser tratado com
indiferença pela família, pelos amigos e, por mais que gritasse por socorro, de
todas as formas que conhecia, era sempre julgado como mimado e rebelde e
deixado mais de lado ainda. Como ouvir a queixa de uma criança chorosa que
implorava pela presença do pai, que abandonara a família para viver com outra
mulher, deixando-a para trás. E os apelos daquela adolescente que dizia ser
muito sozinha, mas não conseguia se aproximar das pessoas, culpando-as por
todo seu sofrimento e solidão.
Eu me enxergaria, certamente, em cada adulto que entrasse ali com a mente
ainda imatura, que não evoluiu conforme a idade, que não vivia o presente, ainda
estava no passado, comportando-se como uma criança indefesa a cada
dificuldade que se deparava ; em cada adolescente revoltado que quisesse
chamar a atenção dos pais, como um grito de “eu existo, eu estou aqui e preciso
de ajuda”; em cada menina que, com ciúmes dos irmãos, passava a invejá-los,
desejando ter nascido menino.
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