Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 67

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Fantasia Clarice de Assis Rosa Ituiutaba/MG Nunca quis ser professora. Admirava a profissão, mas acreditava que, para ser, era necessário ter-se o “dom” de ensinar e eu não o tenho;nem o dom, tampouco boa vontade para tal. Por falta de opção, estudei Pedagogia. Não sabia ao certo o que queria da vida, e minhas cogitações eram rapidamente anuladas por pessoas que não me julgavam capaz de exercer outra profissão considerada de maior dificuldade. Quando criança, desejava muito ser médica, sonho de muitos que não sabem ainda o que querem. Na adolescência, pensava em ser psicóloga, admirava a capacidade que esses profissionais têm de conseguirem ajudar as pessoas a conhecerem a si mesmas, a ouvi-las sem julgamentos. Até hoje admiro, porém, para eu ajudar alguém, seria necessário, antes, ajudar a mim mesma. Tenho muitas incertezas, muitas angústias e um vazio que parece não ter fim. Certamente, se eu fosse psicóloga, identificaria-me com cada um que chegasse em meu consultório relatando que não sabia o sentido da sua vida, não sabia que direção tomar em diversos aspectos. Identificaria-me com o paciente que não sabia perceber se determinadas atitudes tomadas eram consideradas certas, erradas ou precipitadas demais . Como conseguiria ajudar alguém, se em cada consulta, inevitavelmente, traria à mente todo o meu passado, toda a minha história. Como ouvir calada o relato de um adolescente revoltado, que se julgava injustiçado por ser tratado com indiferença pela família, pelos amigos e, por mais que gritasse por socorro, de todas as formas que conhecia, era sempre julgado como mimado e rebelde e deixado mais de lado ainda. Como ouvir a queixa de uma criança chorosa que implorava pela presença do pai, que abandonara a família para viver com outra mulher, deixando-a para trás. E os apelos daquela adolescente que dizia ser muito sozinha, mas não conseguia se aproximar das pessoas, culpando-as por todo seu sofrimento e solidão. Eu me enxergaria, certamente, em cada adulto que entrasse ali com a mente ainda imatura, que não evoluiu conforme a idade, que não vivia o presente, ainda estava no passado, comportando-se como uma criança indefesa a cada dificuldade que se deparava ; em cada adolescente revoltado que quisesse chamar a atenção dos pais, como um grito de “eu existo, eu estou aqui e preciso de ajuda”; em cada menina que, com ciúmes dos irmãos, passava a invejá-los, desejando ter nascido menino. 62