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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
sentia mais desgraçado que ele, pois via
que depois de devorarem o cão, os
vermes me devorariam e eu federia
igual até ser reduzido a ossos.
Eu estava deitado há tempos e
havia fechado os olhos para ignorar o
cão morto que brilhava com a luz forte
do sol. Embora minhas sensações se
restringissem ao mal cheiro e ao
zumbido
das
moscas,
meus
pensamentos estavam a todo vapor.
Lembranças,
aflições
e
incertezas
consumiam a minha mente. Seria bom
que assim como o meu corpo o meu
cérebro tivesse parado, eu pensei. Mas
ele estava intacto e em pânico,
debruçando-se sobre sentimentos ruins
e desenterrando memórias.
Deus, eu nem tava na treta, nem
tenho currículo de bandido e agora
estava pagando o pato. Eu e os outros
inocentes que haviam morrido. Os
homens fizeram uma carnificina, vieram
muito loucos na crocodilagem. Mó
covardia.
Haveria
mais
algum
sobrevivente? Não quero morrer assim,
num lixão qualquer, como indigente.
Com
certeza
os
jornais
escreveriam algumas linhas e a internet
faria algumas postagens sobre a
chacina, a quantidade de mortos, os
suspeitos, a violência urbana, enfim,
sem ao menos imaginar que eu
agonizara
por
intermináveis
horas
(talvez dias, não sei) no lixão ao lado.
As pessoas leriam indiferentes as
postagens e reportagens e no outro dia
estariam novamente sedentas por novas
notícias e tragédias, pois é assim que a
multidão age: primeiro aglomeração,
comoção,
depois
dispersão.
Os
investigadores e a polícia arquivariam o
processo por falta de provas e os mortos
jazeriam no silêncio da impunidade. É
assim que sempre foi e sempre será.
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Tudo isso continuaria, todo o mundo,
mas agora sem mim.
Ontem, numa manhã parecida,
eu estava feliz. Feliz sem qualquer
motivo ou por qualquer motivo, mas
simplesmente feliz. Havia conseguido
vender duas dúzias de garrafinhas de
água no farol, o que me garantia
quarenta reais no bolso. Tinha sido
um dia bom. O trânsito parado fazia
com que os motoristas sentissem
mais calor e bebessem mais água.
Agora cada lembrança, cada memória
recriada e revivificada pela saudade
adquiria pra mim um sabor agridoce.
Era
me
muito
custoso
cada
movimento, cada pensamento. Eu
agonizava num descampado usado
como depósito de lixo, tampouco
impedido
de
afligir-me
com
a
iminência da morte.
Abri os olhos e novamente
encarei os restos mortais do cão. Com
certeza ele estava numa situação
melhor que a minha. Nada sentia, não
mais existia e sofria. Morrer faria
desaparecer todo o meu cansaço,
todo
o
meu
desespero.
Meus
pensamentos me perturbavam e
exausto de lutar contra eles e contra o
sol quente que queimava minha pele,
eu adormeci.
Quando despertei já era noite,
mas tudo estava como antes: dor,
solidão, desespero, calor e sede,
muita sede. Eu já estava praticamente
há vinte e quatro horas ferido. O
tempo ia passando e eu sabia que
horas a mais ou horas a menos eu iria
morrer, sem tampouco saber o que
isso significava. Minha garganta seca
queimava a ponto de me incomodar
mais que a dor no corpo. Da escuridão
em que eu me encontrava era possível
ver as luzes dos casebres que não
estavam tão distantes. Será que a