Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 63

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 sentia mais desgraçado que ele, pois via que depois de devorarem o cão, os vermes me devorariam e eu federia igual até ser reduzido a ossos. Eu estava deitado há tempos e havia fechado os olhos para ignorar o cão morto que brilhava com a luz forte do sol. Embora minhas sensações se restringissem ao mal cheiro e ao zumbido das moscas, meus pensamentos estavam a todo vapor. Lembranças, aflições e incertezas consumiam a minha mente. Seria bom que assim como o meu corpo o meu cérebro tivesse parado, eu pensei. Mas ele estava intacto e em pânico, debruçando-se sobre sentimentos ruins e desenterrando memórias. Deus, eu nem tava na treta, nem tenho currículo de bandido e agora estava pagando o pato. Eu e os outros inocentes que haviam morrido. Os homens fizeram uma carnificina, vieram muito loucos na crocodilagem. Mó covardia. Haveria mais algum sobrevivente? Não quero morrer assim, num lixão qualquer, como indigente. Com certeza os jornais escreveriam algumas linhas e a internet faria algumas postagens sobre a chacina, a quantidade de mortos, os suspeitos, a violência urbana, enfim, sem ao menos imaginar que eu agonizara por intermináveis horas (talvez dias, não sei) no lixão ao lado. As pessoas leriam indiferentes as postagens e reportagens e no outro dia estariam novamente sedentas por novas notícias e tragédias, pois é assim que a multidão age: primeiro aglomeração, comoção, depois dispersão. Os investigadores e a polícia arquivariam o processo por falta de provas e os mortos jazeriam no silêncio da impunidade. É assim que sempre foi e sempre será. 58 Tudo isso continuaria, todo o mundo, mas agora sem mim. Ontem, numa manhã parecida, eu estava feliz. Feliz sem qualquer motivo ou por qualquer motivo, mas simplesmente feliz. Havia conseguido vender duas dúzias de garrafinhas de água no farol, o que me garantia quarenta reais no bolso. Tinha sido um dia bom. O trânsito parado fazia com que os motoristas sentissem mais calor e bebessem mais água. Agora cada lembrança, cada memória recriada e revivificada pela saudade adquiria pra mim um sabor agridoce. Era me muito custoso cada movimento, cada pensamento. Eu agonizava num descampado usado como depósito de lixo, tampouco impedido de afligir-me com a iminência da morte. Abri os olhos e novamente encarei os restos mortais do cão. Com certeza ele estava numa situação melhor que a minha. Nada sentia, não mais existia e sofria. Morrer faria desaparecer todo o meu cansaço, todo o meu desespero. Meus pensamentos me perturbavam e exausto de lutar contra eles e contra o sol quente que queimava minha pele, eu adormeci. Quando despertei já era noite, mas tudo estava como antes: dor, solidão, desespero, calor e sede, muita sede. Eu já estava praticamente há vinte e quatro horas ferido. O tempo ia passando e eu sabia que horas a mais ou horas a menos eu iria morrer, sem tampouco saber o que isso significava. Minha garganta seca queimava a ponto de me incomodar mais que a dor no corpo. Da escuridão em que eu me encontrava era possível ver as luzes dos casebres que não estavam tão distantes. Será que a