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LiteraLivre n º 8 – Mar / Abr de 2018
disso, minha cabeça estava inchada e ardia constantemente. O sangue havia parado de escorrer, mas eu a sentia aberta. Meus pensamentos estavam obscuros, desconexos. Relembrei calmamente o que se passara comigo. Eu havia parado no Zecão para dar um abraço no mano Pepê. Tomei quatro ou cinco latinhas de cervejas e já estava me preparando para ir para casa. Fui ao banheiro e quando voltei tinha tiro para tudo quanto é lado. Saí correndo para o terreno baldio, para o lixão e corri na escuridão até cair onde então eu me encontrava.
O sol foi esquentando e o cheiro do lixo começou a me incomodar profundamente. Precisava levantar o corpo, mudar de posição ou ao menos conseguir virar a cabeça. Eu tentei várias vezes e nessas várias tentativas de perder o fôlego e sentir todo o corpo queimar, eu chorava desesperadamente. Estava prestes a desistir, quando num golpe só, numa dor indescritível, consegui virar de costas. Vi então que acima de mim o sol e senti os meus olhos arderem. Tentei abri-los, mas o pouco que eu enxergava era cinza e nebuloso. Eu sentia minha garganta ressecada e uma sede imensurável. Com um esforço penoso, sobre-humano, consegui me apoiar em algum resto de coisa, em algum lixo e consegui me sentar reclinadamente. Assim, aos poucos eu conseguia distinguir em que parte do terreno eu me localizava. Percebi então que estava no centro, exatamente onde restos de materiais de construção, pneus velhos, carros abandonados e queimados e lixo orgânico eram jogados, abandonados e às vezes carbonizado ou enterrado. A minha frente, a uns trezentos e cinquenta metros de onde eu estava, havia um córrego poluído e
contaminado, onde uma ponte com restos de madeira fora improvisada pelos próprios moradores para ligar os dois lados da comunidade. Nas minhas costas, a mais ou menos quatrocentos metros de mim, estava o bar do Zecão. Como é que eu havia ido parar naquele amontoado de lixo se me acertaram na área descampada? Eu havia me arrastado até ali? E por que agora eu mal conseguia me mexer?
O calor era insuportável. Eu sabia não sobreviveria muito tempo sem água. As moscas, atraídas pelo odor fétido do lixo e pelo meu sangue coagulado na pele, me atormentavam e eu não tinha muita força para espantá-las. Às vezes, sons estranhos chegavam aos meus ouvidos, ruídos de vozes, gritos de crianças que me chamavam. Eu sentia a cabeça pesada e dormente. Tentava responder as vozes, gritava o mais que eu podia, mas elas não respondiam como ou quando eu queria. Meu Deus, eu estava delirando. Não havia ninguém ali, a não ser eu, as baratas, os ratos e as moscas.
Entrei em desespero e comecei a chorar. Foi nesse momento que eu vi um cão em decomposição a uns seis ou sete passos de mim. Os vermes famintos faziam festa com a fartura, fervilhavam atravessando a sua carne que se desmanchava. Ainda dava para ver que o cão era grande e gordo. Logo seria o meu fim, logo eu estaria morto e sendo devorado pelos vermes igual ao cão que fedia ao meu lado. Com a temperatura aumentando o cheiro tornava-se cada vez pior. Será que alguém o abandonara pra morrer ou lhe jogaram morto? Será que, como eu, ele agonizara em seus últimos momentos de vida? Eu me
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