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LiteraLivre n º 8 – Mar / Abr de 2018
aguentasse. Minha primeira reação foi proteger os meus ouvidos e me jogar ao chão, então me protegi na mesa de sinuca, mas a rajada de tiros e os disparos ficaram cada vez mais próximos e mais frequentes.
Baixei o máximo que eu pude a cabeça e procurei retornar ao fundo do bar, que dava para um terreno baldio e descampado, que os moradores faziam de lixão. Os fuzis não paravam e eu me encolhia o máximo que podia e praticamente me arrastando no chão, eu consegui correr para o terreno baldio e escuro. Mas um dos homens me seguiu. Enfurecido, ele atirava a esmo na escuridão e mesmo com todo o breu que me ajudou a escapar dos tiros, eu sentia que a qualquer momento eu seria atingido. Eu ouvia o tilintar das balas que atingiam o mato, o entulho e o lixo, cada vez mais próximo de mim. Com a escuridão era difícil se desviar de tantos obstáculos no chão e o medo fazia com que eu tropeçasse várias vezes. Os projéteis passavam perto, muito perto, cada vez mais perto. De repente, senti uma pressão, uma pancada na cabeça e caí. Os gritos e os tiros foram ficando cada vez mais raros, longe, inaudíveis. Tudo havia silenciado. Fui atingido, vou morrer, eu pensei. Esse foi meu último pensamento antes de tudo desaparecer.
Eu jamais me encontrara numa situação tão estranha e jamais sentira a morte tão próxima. Despertei algum tempo depois, ainda era noite, e percebi que eu estava deitado em cima de um amontoado de sacos de lixo. O cheiro era forte, horrível. Algumas baratas roçavam suas patas e antenas na minha pele. Não sentia nojo. Estava confuso demais para sentir qualquer ranço, mas sentia um desconforto terrível por não conseguir me mexer ou gritar por socorro. Como num sonho, meu corpo
não obedecia aos meus comandos e isso me angustiava.
Ouvia os zunidos das moscas, o movimento das ratazanas e das baratas, e assim o tempo passava. Eu estava ansioso por um rastro de luz. Como havia caído de bruços imaginei que se me virasse de costas conseguiria ver ao menos as estrelas no céu e isso me acalmaria. Decidi então fazer um esforço imensurável para me movimentar e sair daquela situação, mas sequer consegui me mexer. Uma dor aguda, lancinante atravessou meu corpo dos pés à cabeça e outra vez tudo desapareceu.
As primeiras luzes do dia começaram a raiar quando eu acordei. Sentia uma forte ardência na lateral da cabeça, perto da orelha, que escorria sangue em meus olhos e lábios. Estava trêmulo, confuso. O que havia acontecido? Como eu fora parar ali naquela situação? Por que não conseguia pedir socorro? Eu estava baleado e iria sangrar até morrer.
Novamente tentei me movimentar. Dessa vez consegui mexer levemente o braço esquerdo e a perna direita. Tentei me virar, pois a posição que eu me encontrava era incômoda demais. Sentia muita dor, era como se todos os meus ossos estivessem partidos e sem muita força não tinha jeito, tive que continuar, ao menos por enquanto, de bruços. Com muito custo levei meus dedos à perna que doía muito. Era uma dor intensa, aguda e interruptiva. Ainda em estado de choque eu compreendi então que eu estava bastante ferido. Só em minha perna direita havia três perfurações. Eu sentia os projéteis alojados queimarem. Meus ombros também doíam, o que dificultava ainda mais meus movimentos. Além
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