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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Duas noites e dois dias
Luanda Gomes dos Santos Julião
São Paulo/SP
Eu não me lembro de ter ouvido
os ruídos do motor do carro se
aproximando e nem mesmo o instante
exato de quando as balas começaram a
zunir. As caixas de som estavam no
volume máximo e tocava um rap, cujas
batidas impediam inclusive a atenção de
qualquer arrancada forte ou ronco de
motor. Eu mesmo, entre um copo e
outro de cerveja, viajava solitário nas
letras do mestre Sabotagem, enquanto
deixava o efeito do álcool atravessar
meu corpo. Era quase meia noite e pra
mim nem era tarde, era sábado, fazia
um calor do caraio e àquela hora ainda
havia muita gente não só no bar do
Zecão, mas também nas vielas, em
outros botecos, nas portas dos casebres,
enfim, na quebrada toda. Gente que
chegava do trampo, como eu, e fazia
uma fita no Zecão pra relaxar, torcar
ideias e tomar umas brejas antes de
seguir para casa, gente que estava ali o
dia todo jogando sinuca, baralho e
dominó, gente que passava ali antes de
descer pro fluxo.
Além disso, era aniversário do
mano Pepê, um dos moradores mais
querido e respeitado na área. Ele havia
improvisado uma churrasqueira com uns
tijolos e assava uns espetinhos de carne
para os parças mais chegados. Os
manos comiam e bebiam enquanto
trocavam ideias sobre o surto de dengue
na área, até aquele dia quatro
moradores tinham morrido na quebrada.
Falavam também da falta da coleta do
lixo. Pepê, semianalfabeto, vociferava
contra o prefeito e a omissão do
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governo e os parças, desatentos, nem
se ligaram quando uma Parati, preta e
filmada, parou em frente ao bar do
Zecão. Eu voltava do banheiro, um
pequenino cômodo que ficava na
parte externa e lateral do bar, quando
vi as portas do veículo serem
destravadas rapidamente e descerem
cinco homens encapuzados, com
sangue nos zóio, disparando sem
hesitar os seus fuzis contra todos ali.
Sim, eu me lembro de que
quando as metralhadoras começaram
a ser disparadas contra nós pra
arregaçar, sem dó. No desespero,
trombamos nas coisas que estavam a
nossa frente e também uns nos
outros, a ponto de olharmos um nos
olhos do outro o desespero com a
proximidade da morte. Zecão, o dono
do bar, enorme e robusto, olhou para
mim em silêncio com os olhos
esbugalhados de medo, antes de
tombar ao chão. Sim, me lembro
perfeitamente. De sua cara decepada
por dois projéteis, escorria uma poça
de
sangue.
Zecão
estava
irreconhecível
com
o
rosto
desfigurado. Os outros fregueses,
homens e mulheres, adolescentes e
até crianças, todos trôpegos de medo
gritavam, pediam clemência a Deus,
enquanto
eram
furados
pelos
projéteis.
Os
tiros
provocaram
uma
fumaça azulada que era cortada pela
linha de fogo. Não dava para
distinguir muita coisa, não dava para
se pensar muito a não ser correr ou
se proteger o quanto o seu corpo