Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 64

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 minha mãe e minha Preta já tinham dado minha falta? Oh, Deus e o meu pivete? Quem iria sustentar o meu pivete? A essa altura algum vizinho já deveria ter dito que eu também estava no bar. Haveria mais sobreviventes? Elas estavam apavoradas a minha procura? Eu provavelmente seria dado como desaparecido e anos mais tarde ao lotearem ou limparem o descampado achariam a minha carcaça e pensariam que tratava-se de uma desova. O cheiro do lixo me nauseava. E o cheiro de carniça tornara-se insuportável. Eu precisava me arrastar dali a qualquer custo assim que o sol nascesse. Mas será que eu conseguiria? Como deslocar um corpo pesado e quase imobilizado? Assim que o dia começou a clarear comecei a me arrastar como uma minhoca pelo lixo. Passei praticamente toda a manhã sufocando a dor e me rastejando, mas tendo em mente que precisava sair daquela situação. A dor era forte, imensurável, mas era a sede que eu sentia que me torturava. Como uma fera usei minhas unhas para procurar entre os sacos de lixo, algum resto, algum resquício de algum líquido. Havia perdido tudo aquilo que se pode chamar de pudor ou dignidade. Estava imundo, sujo de sangue, suor e restos de alimentos podres e fezes. O sol estava a pino e eu estava completamente fraco, esgotado, a ponto de me dar por vencido, quando milagrosamente uma garrafa pet reluziu em meus olhos com quatro dedos de refrigerante. Eu não tive dúvidas, virei goela abaixo. O líquido estava quente e insosso, intragável, mas ainda servia pra me dar um pouco de força. Passei o resto da tarde gemendo, lamentando minha má sorte e tentando me recompor. Quanto tempo mais eu vou resistir? O líquido quente e açucarado que havia bebido aumentou a minha sede. Soprava um ar menos carnicento ou já nem notava mais o cheiro. Eu não ouvia mais nada, não sentia mais nada. Olhava para o céu com poucas estrelas e pensava que sem água morreria em breve. A dor aumentara, minha perna estava inchada e latejando com a hemorragia interna. Via vultos na escuridão, acho que eu estava delirando. Essa noite, com o todo o desconforto foi passada em claro. O dia amanhecia quando eu apaguei. Completamente sem forças eu acordei com o sol quente queimando meu rosto. Estava esgotado, quase sem sentidos. De repente, escutei vozes. A princípio julguei que estava delirando. Mas, não. Eram vozes de duas ou três mulheres. Comecei a grita, a pedir socorro o mais alto que eu conseguia, mas da minha boa saiam gemidos e lamentações. Achei que elas não veriam. E de repente, pela misericórdia divina, elas me viram e me salvaram. www.facebook.com/luanda.juliao.1 59