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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
minha mãe e minha Preta já tinham
dado minha falta? Oh, Deus e o meu
pivete? Quem iria sustentar o meu
pivete? A essa altura algum vizinho já
deveria ter dito que eu também estava
no bar. Haveria mais sobreviventes? Elas
estavam apavoradas a minha procura?
Eu provavelmente seria dado como
desaparecido e anos mais tarde ao
lotearem ou limparem o descampado
achariam a minha carcaça e pensariam
que tratava-se de uma desova.
O cheiro do lixo me nauseava. E o
cheiro
de
carniça
tornara-se
insuportável. Eu precisava me arrastar
dali a qualquer custo assim que o sol
nascesse. Mas será que eu conseguiria?
Como deslocar um corpo pesado e
quase imobilizado?
Assim que o dia começou a clarear
comecei a me arrastar como uma
minhoca pelo lixo. Passei praticamente
toda a manhã sufocando a dor e me
rastejando, mas tendo em mente que
precisava sair daquela situação. A dor
era forte, imensurável, mas era a sede
que eu sentia que me torturava. Como
uma fera usei minhas unhas para
procurar entre os sacos de lixo, algum
resto, algum resquício de algum líquido.
Havia perdido tudo aquilo que se pode
chamar de pudor ou dignidade. Estava
imundo, sujo de sangue, suor e restos
de alimentos podres e fezes. O sol
estava
a
pino
e
eu
estava
completamente fraco, esgotado, a ponto
de me dar por vencido, quando
milagrosamente uma garrafa pet reluziu
em meus olhos com quatro dedos de
refrigerante. Eu não tive dúvidas, virei
goela abaixo. O líquido estava quente
e insosso, intragável, mas ainda
servia pra me dar um pouco de força.
Passei
o
resto
da
tarde
gemendo, lamentando minha má
sorte e tentando me recompor.
Quanto tempo mais eu vou resistir? O
líquido quente e açucarado que havia
bebido aumentou a minha sede.
Soprava um ar menos carnicento ou
já nem notava mais o cheiro. Eu não
ouvia mais nada, não sentia mais
nada. Olhava para o céu com poucas
estrelas e pensava que sem água
morreria em breve. A dor aumentara,
minha perna estava inchada e
latejando com a hemorragia interna.
Via vultos na escuridão, acho que eu
estava delirando. Essa noite, com o
todo o desconforto foi passada em
claro. O dia amanhecia quando eu
apaguei.
Completamente sem forças eu
acordei com o sol quente queimando
meu rosto. Estava esgotado, quase
sem sentidos. De repente, escutei
vozes. A princípio julguei que estava
delirando. Mas, não. Eram vozes de
duas ou três mulheres. Comecei a
grita, a pedir socorro o mais alto que
eu conseguia, mas da minha boa
saiam gemidos e lamentações. Achei
que elas não veriam. E de repente,
pela misericórdia divina, elas me
viram e me salvaram.
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