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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Anel de Lata
Aldenor Pimentel
Boa Vista/RR
Quando criança, ele colocava no dedo um lacre de lata de refrigerante e
brincava que era seu anel de doutor. Décadas depois, após receber o diploma de
médico, no fim da cerimônia de formatura, sua mãe lhe pôs em um dos dedos
um anel dourado com uma pedra esverdeada. A mulher ostentava um vestido
simples, mas digno, e o orgulho de ver Lázaro se tornar o primeiro médico da
família.
Na hora, ouviam-se risos de galhofa vindos da primeira fileira do auditório,
onde estavam os mais novos médicos da cidade, de beca, por cima de black ties
feitos sob medida. Eram os mesmos que no primeiro dia de aula na faculdade
riram de Lázaro, por ser ele o único da turma a não trajar jaleco branco e ainda
chegar à sala com respingos de cimento na calça jeans surrada.
Na saída da cerimônia, lá estavam reunidos os mesmos de sempre. Quando
Lázaro
e
sua
mãe
passaram
próximo
ao
grupo,
uma
voz
perguntou
capciosamente:
— Lázaro, e aquele anel... é de ouro ou de lata? — A pergunta foi seguida
de uma longa gargalhada geral da turma.
Lázaro olhou a mãe, visivelmente constrangida. Olhou o anel que acabara
de ganhar e viu nele o reflexo de si próprio ao lado dela. Aquela imagem, na sua
cabeça, se fundiu à outra, do passado: o jovem enxergou-se, ainda criança,
acordando cedo para ir à escola com a mãe. O colégio ficava a quilômetros de
casa. Lázaro passava o dia todo lá. Antes de anoitecer, ela voltava para pegá-lo,
na mesma bicicleta adaptada para coletar latas de alumínio. Depois de um longo
dia de trabalho, o meio de transporte e sustento da família estava repleto de
latinhas.
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