Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 169

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 certeza. Um casamento é feito de paciência. Muita. Não é no primeiro problema que a gente desiste, mesmo porque ele já me ameaçou que vai me encontrar até no inferno. Não é amor isso, filha? Me seguir aonde quer que eu vá? É porque não vive sem mim. E não quer me magoar, nem me machucar, disso eu tenho certeza. As coisas vão voltar a ser como antes. Deixa ele arranjar um novo emprego. Tem algo a ver com dignidade. Coisa de macho. Vamos fazer um doce, filha? Como? Eu não estou gorda, Ana. Só um pouco acima do peso. É preciso muito doce para sumir com tanta amargura. Ainda me lembro do sorriso do pequeno. Lá em cima do piano, tem um copo de veneno, quem bebeu, morreu, o azar foi seu. Eu tive que tomar veneno de rato, Ana. Eu sou uma ratazana que nunca soube criar um ninho. Mereço morrer. Não aguentei quando soube que seu pai tinha ido morar com a Glória. A enxerida, a sem-vergonha. Ele mesmo me disse enquanto enchia a mochila de roupas. Me chamou de gorda, disse que meus filhos arruinaram meu corpo, que pessoas fúteis como eu deveriam acabar sozinhas. Eu me sinto vazia. Onde foi que eu errei, filha? Estou sufocando, estou morrendo. Esse tremor que vem de dentro, que balança meu mundo. Esse suor que é de desgosto, essa taquicardia que é do coração desgastado. Me deixa morrer, Ana. Quando o Gabriel chegar da rua, avisa que deixei a janta pronta. E não esqueça o bolo de chocolate em cima da mesa. Deixem que o doce tire o amargo de suas bocas. https://ascontistas.wordpress.com/as-contistas/ https://www.facebook.com/sandra.godinhogoncalves 164