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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
certeza. Um casamento é feito de paciência. Muita. Não é no primeiro problema
que a gente desiste, mesmo porque ele já me ameaçou que vai me encontrar até
no inferno. Não é amor isso, filha? Me seguir aonde quer que eu vá? É porque
não vive sem mim. E não quer me magoar, nem me machucar, disso eu tenho
certeza. As coisas vão voltar a ser como antes. Deixa ele arranjar um novo
emprego. Tem algo a ver com dignidade. Coisa de macho. Vamos fazer um doce,
filha? Como? Eu não estou gorda, Ana. Só um pouco acima do peso. É preciso
muito doce para sumir com tanta amargura. Ainda me lembro do sorriso do
pequeno.
Lá em cima do piano, tem um copo de veneno, quem bebeu, morreu, o
azar foi seu.
Eu tive que tomar veneno de rato, Ana. Eu sou uma ratazana que nunca
soube criar um ninho. Mereço morrer. Não aguentei quando soube que seu pai
tinha ido morar com a Glória. A enxerida, a sem-vergonha. Ele mesmo me disse
enquanto enchia a mochila de roupas. Me chamou de gorda, disse que meus
filhos arruinaram meu corpo, que pessoas fúteis como eu deveriam acabar
sozinhas. Eu me sinto vazia. Onde foi que eu errei, filha? Estou sufocando, estou
morrendo. Esse tremor que vem de dentro, que balança meu mundo. Esse suor
que é de desgosto, essa taquicardia que é do coração desgastado. Me deixa
morrer, Ana. Quando o Gabriel chegar da rua, avisa que deixei a janta pronta. E
não esqueça o bolo de chocolate em cima da mesa. Deixem que o doce tire o
amargo de suas bocas.
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