Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 168

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 trabalha tanto para botar comida na mesa, dar um mínimo de conforto para a gente e eu amolando com uma mentira. Acredita que a Glória teve coragem de inventar que os churrascos que ele vai com os amigos no domingo não passam de desculpa para ele se embandeirar para os lados da casa dela? E não foi só isso que ela disse, aquela enxerida. Inventou também que o bar das sextas-feiras é motivo de perdição nas casas das putas. Como tem maldade no mundo, não é, Ana? Aprende, filha. Aprende tudo, para não confiar nas vizinhas que só têm olho-gordo e cara seca de quem se perdeu da felicidade. Seu pai é um homem tão bom, nunca levantou a mão para o filho doente. Por falar nele, vá ver como ele está, Ana, porque ele está meio quietinho. Enquanto isso eu misturo o creme de leite, a baunilha e o leite condensado para fazer um sorvete cremoso. Enquanto eu me perco no hábito, remexer, remexer sempre para que a massa se forme, dissolvendo tudo. Misérias, mágoas e manhas. Que eu tenho muitas, seu pai sempre diz. E ele tem sempre razão. Um, dois, feijão com arroz, Três, quatro, feijão no prato... Eu não quero comer, Ana. Coma você. Feijão, arroz, biscoito e pastéis. Como uma mãe pode comer quando acaba de enterrar o filho? Está certo que agora ele não sofre mais. E é uma boca a menos, conforme seu pai disse. Eu sei que ele tem razão. Ele tem sempre razão, mas não consigo esquecer o rosto pequeno e descansado da falta de problemas. Tão puro. Um anjo que não chegou a viver. A gente morre um muito quando um filho desaparece, Ana. Um dia você vai entender. Esse luto sem prazo para terminar, esse desânimo pior que um abate porque é a morte em vida. A Glória falou que se eu não tomar cuidado, seu pai vai procurar atividade fora de casa. Eu não acreditei. Onde já se viu? Mas o homem tem as necessidades, não é? Como fui esquecer disso? À noite seu pai chegou com o diabo no corpo, mas eu não tinha nenhum porque meu anjo ainda me habitava. Eu não queria nada com ele. Um mal-entendido. Ele me estapeou o rosto, sangrou o lábio, ardeu a face, me colocou de quatro feito um animal. E me chamou de cadela. E disse verdades, que eu precisava do dinheiro dele para comer e dormir, então que eu fosse agradecida e desse para ele. Obedeci. Ele me penetrou até a alma, com raiva e razão. Eu lhe devia gratidão. E acalmou o animal que o habitava. E dormiu sossegado porque o dia seguinte era de trabalho e ele precisava descansar. Em poucos minutos, ressonava, a baba pendendo da boca torta, molhando o travesseiro branco e sem paz. O Papagaio come milho, Periquito leva a fama. Cantam uns e choram outros, Triste sina de quem ama. O olho roxo? A culpa é minha, Ana. Bem que você disse que quem bate uma vez bate sempre. Pegou o gosto. Mas não o culpo. Se eu pego porrada é porque seu pai está nervoso. Come o milho, Ana. E fecha essa matraca. Eu não quero ouvir que eu tenho direitos, nem que seu pai é um bicho. Você deve respeito a ele. Eu devo respeito a ele. Ainda mais agora que perdeu o emprego. E afoga a mágoa do corpo no copo de cerveja. Ele não tem culpa. Aposto que nem se lembra que me surra a cada noite, quando chega cambaleante da venda do João. Eu é que preciso saber a hora de falar. Nunca soube. Eu sou uma burra. Come o milho e pensa, Ana. Se eu for na delegacia vou ficar sozinha. Sozinha, entende, filha? Não tenho para onde ir. Depois, a gente vai se acertar, eu tenho 163