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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
trabalha tanto para botar comida na mesa, dar um mínimo de conforto para a
gente e eu amolando com uma mentira. Acredita que a Glória teve coragem de
inventar que os churrascos que ele vai com os amigos no domingo não passam
de desculpa para ele se embandeirar para os lados da casa dela? E não foi só isso
que ela disse, aquela enxerida. Inventou também que o bar das sextas-feiras é
motivo de perdição nas casas das putas. Como tem maldade no mundo, não é,
Ana? Aprende, filha. Aprende tudo, para não confiar nas vizinhas que só têm
olho-gordo e cara seca de quem se perdeu da felicidade. Seu pai é um homem
tão bom, nunca levantou a mão para o filho doente. Por falar nele, vá ver como
ele está, Ana, porque ele está meio quietinho. Enquanto isso eu misturo o creme
de leite, a baunilha e o leite condensado para fazer um sorvete cremoso.
Enquanto eu me perco no hábito, remexer, remexer sempre para que a massa se
forme, dissolvendo tudo. Misérias, mágoas e manhas. Que eu tenho muitas, seu
pai sempre diz. E ele tem sempre razão.
Um, dois, feijão com arroz, Três, quatro, feijão no prato...
Eu não quero comer, Ana. Coma você. Feijão, arroz, biscoito e pastéis.
Como uma mãe pode comer quando acaba de enterrar o filho? Está certo que
agora ele não sofre mais. E é uma boca a menos, conforme seu pai disse. Eu sei
que ele tem razão. Ele tem sempre razão, mas não consigo esquecer o rosto
pequeno e descansado da falta de problemas. Tão puro. Um anjo que não chegou
a viver. A gente morre um muito quando um filho desaparece, Ana. Um dia você
vai entender. Esse luto sem prazo para terminar, esse desânimo pior que um
abate porque é a morte em vida. A Glória falou que se eu não tomar cuidado, seu
pai vai procurar atividade fora de casa. Eu não acreditei. Onde já se viu? Mas o
homem tem as necessidades, não é? Como fui esquecer disso? À noite seu pai
chegou com o diabo no corpo, mas eu não tinha nenhum porque meu anjo ainda
me habitava. Eu não queria nada com ele. Um mal-entendido. Ele me estapeou o
rosto, sangrou o lábio, ardeu a face, me colocou de quatro feito um animal. E me
chamou de cadela. E disse verdades, que eu precisava do dinheiro dele para
comer e dormir, então que eu fosse agradecida e desse para ele. Obedeci. Ele me
penetrou até a alma, com raiva e razão. Eu lhe devia gratidão. E acalmou o
animal que o habitava. E dormiu sossegado porque o dia seguinte era de trabalho
e ele precisava descansar. Em poucos minutos, ressonava, a baba pendendo da
boca torta, molhando o travesseiro branco e sem paz.
O Papagaio come milho, Periquito leva a fama. Cantam uns e choram
outros, Triste sina de quem ama.
O olho roxo? A culpa é minha, Ana. Bem que você disse que quem bate
uma vez bate sempre. Pegou o gosto. Mas não o culpo. Se eu pego porrada é
porque seu pai está nervoso. Come o milho, Ana. E fecha essa matraca. Eu não
quero ouvir que eu tenho direitos, nem que seu pai é um bicho. Você deve
respeito a ele. Eu devo respeito a ele. Ainda mais agora que perdeu o emprego. E
afoga a mágoa do corpo no copo de cerveja. Ele não tem culpa. Aposto que nem
se lembra que me surra a cada noite, quando chega cambaleante da venda do
João. Eu é que preciso saber a hora de falar. Nunca soube. Eu sou uma burra.
Come o milho e pensa, Ana. Se eu for na delegacia vou ficar sozinha. Sozinha,
entende, filha? Não tenho para onde ir. Depois, a gente vai se acertar, eu tenho
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