LiteraLivre n º 8 – Mar / Abr de 2018
Um banquete para Ana
Sandra Godinho Manaus / AM
Pirulito que bate bate, Pirulito que já bateu, Quem gosta de mim é ela …
Venha aqui para o canto da pia me ajudar a fazer comida, Ana. Lugar de menina é na cozinha, ao lado do fogão, enxugando gelo, engolindo o choro, fazendo comida. Comida de verdade, sem nada de faz-de-conta. Porque tudo nessa casa é de verdade. Até a dor, que a gente esconde, ajeita, empurra na alma. Que de tanto doer, já nem sente. Que de tanto sofrer, já nem importa. A mãe ensina. A filha aprende. Hoje vamos fazer pirulito, Ana. Misturar açúcar, água e mel. Deixar tudo doce. Mexer, mexer até o hábito se firmar. Chorar, só o irmão mais novo com essa tosse de cachorro. E chora, e chia, e soluça com gosto. Só enquanto é pequeno. Só enquanto a tosse não passa porque homem que é homem não chora. Com ele adoentado, mal consigo fazer um bolo. O pai reclama com razão quando a janta não está pronta, o coitado. Passa o dia trabalhando, quando chega quer a paz que nunca tem. Entendo a cara amarrada, o silêncio após o trabalho, a zanga com o moleque que nunca sossega, azucrinando os ouvidos. Vigia ele, Ana. Faz ele dormir, faz ele sonhar com uma vida na cidade grande, cheia de bocas de becos, esquinas escondidas, ruas rasgadas que cortam caminhos para cima e para baixo, caminhos que ninguém imagina, caminhos que ninguém vê. Um morando perto do outro, apertado, solidário na sina sinistra. E quando seu pai chegar e ligar a TV, cuidado para não esbarrar nos brinquedos do Gabriel e fazer barulho. Ela fica irritado. Sei que seu irmão espalha tudo pelos cantos, sei disso, mas ele é homem e homem não liga para detalhes de arrumação. Homem só quer saber de bola, trem de madeira, boneco, bicicleta. Tudo jogado pelo caminho. Gabriel agora só liga para o estilingue e as bolinhas de gude que usa como munição na cabeça dos cachorros. Agora encasqueta com os bichos. Arranca os olhos das lagartixas, abre a barriga dos gatos para ver o que tem dentro. Mijo e merda. Igual ao pequeno. De santo, Gabriel só tem o nome. Mas menino é assim mesmo.
Uni, duni, tê, Salamê, mingüê, Um sorvete colorê...
Hoje vamos fazer sorvete, Ana. Um doce para cada amargo. Um doce para cada monstro, fantasma ou demônio. O demônio de hoje é a Ondina, aquela sirigaita que anda pela venda do João em vestido justo, comprimento pouco e vergonha nenhuma. Rebola as ancas, desiquilibrando mundos. E famílias. Fui amolar seu pai com essa história da Ondina. A culpa é da Glória, que insinuou qualquer coisa. Qualquer coisa indecente sobre ela e seu pai estarem se encontrando às escondidas. E eu, boba, fui reclamar com ele. Imagina minha estupidez. Amolar seu pai com essa conversa fútil, essa mentira da vizinha que tem inveja da nossa vida em família. Ele se aporrinhou, com razão. Afinal, ele
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