Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 166

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Sonho de Liberdade Rafael Weiss Brandt Ele tá vindo. Seguro a respiração, tenho que estar dormindo. Tenho. Lençol tem que cair delicadamente, a expor parte discreta da bunda. Mostrar tudo é coisa de puta. Pronto. Não dá pra resistir a esse fio dental, não tem como. Cadáver respirante, eis o papel. Não dá pra ousar mais: latido afasta a onça. Deus, como eu queria ser cachorra. Mas fui feita ovelha. Gélida a presa, ele o predador. Tic.Tac.Tic.Tac. Isso, tenho que empinar. Suspirar profundo pra chamar a atenção: gata preguiçosa, cansa o fardo de conter essa libido. Os sapatos beijam o chão de borracha como nunca sou beijada, ele larga entediado a vida no paletó suado, no relógio pesado de pulso. Tic.Tac.Tic.Tac. Não acendeu a luz. Acabou. Ele não me quer. Não me quer. Sou gorda. Celulite. Estria. Burrice. Falta de classe, classe proletária demais. Deixa disso mulher, é idade. Depois dos quarenta não tem mais isso de foder gostoso, de gozar, de pulsar paixão, de ser animal vivo. Aqui e agora somos bestas empalhadas, todas. Nada mais. Depósito de porra insensível e sorridente, dada à obediência e nada mais. Negar-nos a servidão é nos negar a missão divina. Um baque ao colchão e deita o macho, leão cadaveroso e putrefato. Mundo velho e cinzento esse, em que toda brasa é fria. É a vida. Acordo cedo amanhã. Deixa. Bom dia. Bom dia. Revolução. Essa gente do trabalho nem sabe, mas vez ou outra durante o estupro laboral capitalista, me escondo no banheiro. Meu único e passível ato de revolução nessa existência toma corpo: o orgasmo. Um vidro de perfume Cuba e óleo de amêndoas paixão (santa ironia) é tudo o que preciso para arrancar aos dentes esses grilhões. Meu clitóris é a língua que prega o evangelho do prazer proibido: eu ouso ter tesão nesse mundo insosso! Imagino paus. Veias. Paus pulsantes. Corpos femininos. Corpos masculinos, me complementando, me preenchendo, me fazendo divina, me fazendo sublime. Me fazendo tudo o que não me deixam me fazer. Escorro, deixo marca no vaso: carta vitoriosa, declaração de fé para a próxima rebelde. Chega de sonhar. Amanhã acordo cedo. Deixa. Boa noite. 161