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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Sonho de Liberdade
Rafael Weiss Brandt
Ele tá vindo. Seguro a respiração, tenho que estar dormindo. Tenho.
Lençol tem que cair delicadamente, a expor parte discreta da bunda. Mostrar
tudo é coisa de puta.
Pronto. Não dá pra resistir a esse fio dental, não tem como.
Cadáver respirante, eis o papel. Não dá pra ousar mais: latido afasta a
onça. Deus, como eu queria ser cachorra. Mas fui feita ovelha.
Gélida a presa, ele o predador.
Tic.Tac.Tic.Tac.
Isso, tenho que empinar. Suspirar profundo pra chamar a atenção: gata
preguiçosa, cansa o fardo de conter essa libido.
Os sapatos beijam o chão de borracha como nunca sou beijada, ele
larga entediado a vida no paletó suado, no relógio pesado de pulso.
Tic.Tac.Tic.Tac.
Não acendeu a luz. Acabou. Ele não me quer. Não me quer.
Sou gorda. Celulite. Estria. Burrice. Falta de classe, classe proletária
demais.
Deixa disso mulher, é idade. Depois dos quarenta não tem mais isso de
foder gostoso, de gozar, de pulsar paixão, de ser animal vivo. Aqui e agora somos
bestas empalhadas, todas. Nada mais. Depósito de porra insensível e sorridente,
dada à obediência e nada mais. Negar-nos a servidão é nos negar a missão
divina.
Um baque ao colchão e deita o macho, leão cadaveroso e putrefato.
Mundo velho e cinzento esse, em que toda brasa é fria. É a vida.
Acordo cedo amanhã.
Deixa.
Bom dia.
Bom dia.
Revolução. Essa gente do trabalho nem sabe, mas vez ou outra durante
o estupro laboral capitalista, me escondo no banheiro. Meu único e passível ato
de revolução nessa existência toma corpo: o orgasmo.
Um vidro de perfume Cuba e óleo de amêndoas paixão (santa ironia) é
tudo o que preciso para arrancar aos dentes esses grilhões. Meu clitóris é a
língua que prega o evangelho do prazer proibido: eu ouso ter tesão nesse mundo
insosso! Imagino paus. Veias. Paus pulsantes. Corpos femininos. Corpos
masculinos, me complementando, me preenchendo, me fazendo divina, me
fazendo sublime. Me fazendo tudo o que não me deixam me fazer.
Escorro, deixo marca no vaso: carta vitoriosa, declaração de fé para a
próxima rebelde.
Chega de sonhar.
Amanhã acordo cedo.
Deixa.
Boa noite.
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