LiteraLivre n º 8 – Mar / Abr de 2018
Samuel Kauffmann
Qem Pôs a Pedra?
No meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho... Nunca me esquecerei desse acontecimento...
No meio do caminho tinha uma pedra. Carlos Drummond de Andrade
- Quer saber de uma coisa, Sidney? Você conhece um dos meus filhos, aquele que foi estudar no estrangeiro. Eu estou angustiado com as últimas decisões dele... Mas não posso interferir. O que me magoa, que frustra minhas expectativas, é que ele abandonou uma bela carreira acadêmica, optando por escolhas que lhe dão prazer. Claro que, se tivermos oportunidades, sempre escolheremos aquilo que nos proporciona prazer. Porém, sempre disse para ele que precisamos sonhar, mas com pés no chão, preparando, agora, o futuro.
Assim desabafava, com o amigo Sidney Moura, o idoso Tomás Gonzaga. Era inverno de 2002. Mais três meses e se comemorariam o centenário do grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Passeavam num final de semana, num dia luminoso – um veranico de inverno. Gostoso receber aquele calor sob o Sol inclinado. Sidney possuía uma capacidade, pouco comum, de escutar com paciência as lamentações alheias, utilizando-se, com sabedoria, do seu preparo como reikiano. Percebeu que Tomás estava, indiretamente, a lhe solicitar conselhos. Tomás continuou:- Contudo, o que mais nos preocupava, nos afligia, reconhecendo os problemas emocionais do nosso filho, é o tratamento que ele dispensa à mãe. Chegou a confessar que não suportava ouvir o som da voz da mãe. Sempre a evitava; nem permanecia no mesmo ambiente em que ela se encontrava, retrocedendo em seus passos. A mãe, por sua vez, sofre em silêncio sem qualquer reclamação, isto é, somente comigo. Obtemos, por indicação, a
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