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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
referência de uma psicóloga, que ele aceitou em fazer uma terapia. Ao término
de um ano, ele deu por findo o tratamento, sem que se tenha resolvido a
questão com a mãe, que era o importante. Falou comigo que chegou a uma
conclusão vocacional. Optou por se tornar músico. Fiquei tão decepcionado,
impotente, incapaz de agir com autoridade paterna. Eu o amo muito, muito
mesmo. Fico receoso de magoá-lo.
Tomás calou-se, por uns poucos minutos, que pareceram horas. Sidney o
incentivou a continuar.
- A vida profissional dele não tem sido nenhum sucesso. Aquele ano que
ele passou fora fê-lo perder mercado. Antes tinha um bom número de alunos, a
quem dava aulas de percussão. Ao retornar e recomeçar, nunca mais conseguiu
recuperar a quantidade de alunos que antes tinha. Passados uns poucos anos,
escolheu estudar outra possibilidade profissional, ou seja, ser adestrador de
cães. Uma atividade que lhe causa prazer. Ele se dá bem com animais
domésticos. E, para ele, as coisas ainda continuam difíceis. Faz um ano,
encontrei em casa um objeto de massa, com aspecto de pedra, com a seguinte
inscrição:
“Tire a pedra do meio do seu caminho”. Coloquei no quarto de
dormir dele, sobre a estante, à altura dos olhos.
provoca-lo,
para
estimula-lo
a
se
inquirir.
E por que fiz isso? Para
Julgo,
em
meus
simples
conhecimentos, que a questão dele com a mãe é de origem espiritual, como se
ele não a perdoasse de algum erro passado. A relação mãe-filho é para
incentivar e elevar o amor entre dois seres transitórios, enquanto existirem sobre
a face deste orbe. Essa é a “pedra no caminho” dele: não a perdoar, não se
aproximar, abraçá-la e beijá-la como um filho faz com a mãe, seja no dia das
mães, seja no aniversário, quando se reencontram ou quando se despedem.
Enquanto ele assim continuar procedendo, com tal comportamento, a pedra
haverá de continuar no caminho dele. Somente com o sofrimento é que ele
haverá de despertar espiritualmente. Se ele não tem força suficiente para
remover a pedra, procure contorná-la. Já será alguma coisa. O pior é que ele não
me dá chance de conversarmos e de nos abrirmos totalmente. Sidney, eu
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