Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 135

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Ceci não gostou. Então criou para si uma praia de sonho na qual poderia ir com a família toda, formada por sua mãe, pai e também aqueles que estavam distantes dela - avó, avô, tataravó, tias e tios, primos e primas, mas que povoavam seus sonhos. A menina deu à sua praia o nome de “Praia de Cara-Caramba”, que era linda e era só dela. A praia de Ceci tinha areias muito brancas e fofinhas como alvas penas de garças em revoada, e as águas transparentes como as lágrimas que rolavam no seu rostinho infantil, quando a saudade do seu povo apertava. A menina passou a visitar a sua praia de sonho a qualquer momento e lá ela reunia toda a família. Os presentes e os ausentes. Era só deixar o olhar visitar o passado e trazer dele as mais queridas lembranças. Na praia de Cara-Caramba ela brincava livremente na areia, pois o sol não era tão forte, uma vez que a vegetação que circundava a praia era densa e de um verde-escuro profundo. Ceci comia frutas frescas, também chupava seus picolés preferidos, que ela aprendera a gostar na cidade. As pessoas partilhavam entre si o alimento que traziam e, assim, todos comiam coisas gostosas, brincavam, descansavam e ficavam satisfeitos. Entre os amigos que Ceci encontrava na sua praia de sonho, estava o Saci com uma perna só, a Cuca, a Yara com um verde olhar transparente, o Curupira,a Matintaperera, e outros encantados, ao lado do Pinóquio com a Fada Azul, a Fada do Dente, que ela conhecera recentemente. Ceci gostava deles, mas sentia que eles não eram seus iguais. A Yara, em uma grande concha, contava às crianças histórias do reino das águas. Ela gostava muito de ser admirada. Já o Pinóquio queria que todos soubessem o que aconteceu com ele na barriga da baleia. Mas quando ele contava a sua história seu nariz crescia e ele ficava muito envergonhado. O Curupira e a Matintaperera, contavam como desandavam e deixavam perdidos aqueles que estavam devastando a mata ou matando os animais. Enfim, todos contavam vantagens! Em uma tarde luminosa, quando a menina estava muito envolvida em seus folguedos na sua praia de sonho, ela viu ao longe um vulto. Sentiu-se atraída e correu para ver de perto quem seria. Sentiu um forte palpitar no seu peito. Era um índio idoso sentado à sombra de uma árvore. Ceci não sabia de onde ele tinha saído. Pensou que fosse da floresta, mas depois percebeu que o velho índio saíra-lhe do pensamento e do coração. A menina sentiu um forte desejo de ir até lá com ele então, confiante, correu em sua direção. O índio tinha o olhar misterioso e profundo como o de Ceci e um semblante sereno, como se fizesse parte de tudo ali. Estava rodeado de outros curumins. Eram crianças tinham a pele cor de terra molhada, olhos amendoados e cabelos muito lisos. Tinham o 130