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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Praia de Criança
Olinda Pimentel
Belém/PA
Ceci era um lindo curumim que morava em uma cidade grande. Sua pele tinha a
cor de terra molhada, os olhos amendoados guardavam mistérios no seu escuro
profundo.
Você sabe o que é um curumim? Curumim é uma criança pequena, filha de
família indígena.
Você me perguntaria: “e índios não moram nas florestas?” Porque Ceci morava
na cidade?
É que muitos índios precisaram deixar as aldeias e as famílias para residirem nas
cidades. Isto por fortes razões como: invasão de suas terras por povos
conquistadores, por aventureiros, por madeireiros, por garimpeiros, por
fazendeiros, entre outras situações.
Quando Ceci foi com os pais e irmãos morar na cidade, tudo mudou na sua vida.
Sua família ficou muito reduzida. Os avós, tios e primos não puderam lhes
acompanhar.
A menina sentiu muito não poder estar com seus parentes, como na floresta. Lá
ela brincava, dançava, vivia feliz com eles. Disso ela sentia falta. Também sentia
falta de ouvir histórias contadas pelos mais velhos. Eram histórias bonitas que
falavam da origem e da vida do seu povo. Quando estava no silêncio podia ouvir
o forte canto dos guerreiros e das mulheres em suas festas e celebrações. Podia
ouvir a voz do velho índio contando histórias. Ceci percebeu que o canto, o ritmo
e as histórias do seu povo estavam-lhe no pensamento e no coração.
Às vezes o olhar profundo de Ceci parecia triste, mas não era tristeza, não. É que
ela estava pensando e sentindo, e o olhar daqueles que pensam e procuram
sentir seus pensamentos às vezes parece triste, pois trazem muitas lembranças.
Mas a menina logo ouvia como que dentro do seu peito o som ritmado dos cantos
do seu povo marcados pelo forte do pisar dos queridos parentes. Então Ceci
sentia dentro dela uma força que espantava a tristeza e trazia serenidade e
alegria ao seu olhar de curumim.
Um dia, Ceci foi conhecer uma praia frequentada pelos moradores da cidade. Um
passeio diferente de tudo o que conhecia.
Ceci quase não aproveitou, pois no lugar havia muitas pessoas e os adultos
estavam sempre falando: “cuidado com isso! cuidado com aquilo! Cuidado!
Cuidado!”
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