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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Amélia as definia. Juliana não se encaixava no papel, desde adolescente se abrira
das amarras. Casou porque os pais, tradicionais, diziam que namorar sem casar
é coisa de mulher da vida, e ela foi de véu e grinalda, mas de unhas marrons, e
as mostrando sempre que podia, ao lado da aliança.
E o papel denso, desgastante. Finalmente sua primeira vilã, daquelas de
novela das oito, tipo de personagem em que a atriz teria que tomar muito
cuidado quando fosse ao supermercado ou à feira, as senhoras lhe dariam
bolsadas ou, na pior das hipóteses, um olhar torto como vendo a própria
encarnação do Mal. Mas poucos ainda iam ao teatro nesse país de muitos
analfabetos funcionais e poucos amantes da cultura, mas ela era a personagem
principal, a malvada que atormentava o marido com quem era casada há anos, e
que tinha um caso com um garotão do edifício, vinte e poucos anos, muita
testosterona, algum amor ao trabalho e quase nada aos estudos. Homem fraco e
submisso à mulher, aguentava não apenas a traição, porque ele também
aprontava das suas quando ela viajava a trabalho, executiva que era de alto
cargo em uma empresa. A questão era a convivência entre os dois, que se
tornara insuportável, e aonde ambos pouco ou nada faziam para salvar o
casamento e muito menos se desfaziam dele, mesmo não havendo impedimento
algum.
- Já sei. Vou colocar aquele meu colar lindo quando entrar pela segunda
vez em cena, estala os dedos ao ter esse insight. Mas teria que falar com a
produção para ver se era possível uma alteração no figurino, pequena que fosse.
Achou que daria um ar mais aristocrático à personagem com a joia, herança de
família, tipo de objeto que não tem tanto valor no mercado, mas imponente, que
atrairia ainda mais a atenção quando as luzes se focassem nela. E que não
tivesse ourives na plateia para julgar se a joia era verdadeira ou falsa, no mundo
do teatro, aonde o simulacro é muito mais importante do que a realidade. Que
mulher andaria em casa com saltos daquele tamanho, que lhe doíam os pés?
Precisava descansar, pois o dia de amanhã seria bem longo. Fora os
ensaios, teria que se ocupar do encanamento quebrado, sem homem em casa
que resolvesse o problema, teria que fazer as coisas por ela mesma. Não ela
consertar, mas pagar alguém para fazer o serviço, e ela andava apertada de
dinheiro esse mês, torcia para que a estreia desse certo, muito público, críticas
positivas ou negativas no jornal, casa cheia, aplausos ao final da peça, sexta a
domingo, viagens para outras capitais e cidades importantes do país. Mamãe, eu
quero ser estrela! dizia desde criança para a sua mãe, que sorria e achava
engraçado o jeito da filha se arrumar para as festas de família.
A peruca preta estava em cima da penteadeira. Ela gostava de usá-la de
vez em quando, principalmente nos dias em que o clima ficava mais ameno e ela
não precisava se preocupar em passar calor, a mesma que a personagem usava
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