Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 127

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Amélia as definia. Juliana não se encaixava no papel, desde adolescente se abrira das amarras. Casou porque os pais, tradicionais, diziam que namorar sem casar é coisa de mulher da vida, e ela foi de véu e grinalda, mas de unhas marrons, e as mostrando sempre que podia, ao lado da aliança. E o papel denso, desgastante. Finalmente sua primeira vilã, daquelas de novela das oito, tipo de personagem em que a atriz teria que tomar muito cuidado quando fosse ao supermercado ou à feira, as senhoras lhe dariam bolsadas ou, na pior das hipóteses, um olhar torto como vendo a própria encarnação do Mal. Mas poucos ainda iam ao teatro nesse país de muitos analfabetos funcionais e poucos amantes da cultura, mas ela era a personagem principal, a malvada que atormentava o marido com quem era casada há anos, e que tinha um caso com um garotão do edifício, vinte e poucos anos, muita testosterona, algum amor ao trabalho e quase nada aos estudos. Homem fraco e submisso à mulher, aguentava não apenas a traição, porque ele também aprontava das suas quando ela viajava a trabalho, executiva que era de alto cargo em uma empresa. A questão era a convivência entre os dois, que se tornara insuportável, e aonde ambos pouco ou nada faziam para salvar o casamento e muito menos se desfaziam dele, mesmo não havendo impedimento algum. - Já sei. Vou colocar aquele meu colar lindo quando entrar pela segunda vez em cena, estala os dedos ao ter esse insight. Mas teria que falar com a produção para ver se era possível uma alteração no figurino, pequena que fosse. Achou que daria um ar mais aristocrático à personagem com a joia, herança de família, tipo de objeto que não tem tanto valor no mercado, mas imponente, que atrairia ainda mais a atenção quando as luzes se focassem nela. E que não tivesse ourives na plateia para julgar se a joia era verdadeira ou falsa, no mundo do teatro, aonde o simulacro é muito mais importante do que a realidade. Que mulher andaria em casa com saltos daquele tamanho, que lhe doíam os pés? Precisava descansar, pois o dia de amanhã seria bem longo. Fora os ensaios, teria que se ocupar do encanamento quebrado, sem homem em casa que resolvesse o problema, teria que fazer as coisas por ela mesma. Não ela consertar, mas pagar alguém para fazer o serviço, e ela andava apertada de dinheiro esse mês, torcia para que a estreia desse certo, muito público, críticas positivas ou negativas no jornal, casa cheia, aplausos ao final da peça, sexta a domingo, viagens para outras capitais e cidades importantes do país. Mamãe, eu quero ser estrela! dizia desde criança para a sua mãe, que sorria e achava engraçado o jeito da filha se arrumar para as festas de família. A peruca preta estava em cima da penteadeira. Ela gostava de usá-la de vez em quando, principalmente nos dias em que o clima ficava mais ameno e ela não precisava se preocupar em passar calor, a mesma que a personagem usava 122