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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
ao final, quando a reviravolta se dava a ela conseguia expulsar o marido de casa,
jogando as roupas pela janela. Fui traída!, dizia aos espectadores.
Era preciso incorporar a personagem, anti-Madonna renascentista, fazer-se
humana, mesmo que n a sordidez, em que suspirava antes de dormir, se
imaginando ganhando troféus e sendo reconhecida como artista. Não que ela não
fosse, mas sempre vista como boazinha, atriz média, incapaz de segurar a
densidade, a que se corta no ar com uma faca, planta forrageira dentre tantas
outras do mesmo lugar. Sorriso doce, corpo mignon, protótipo incapaz de proferir
uma palavra de baixo calão ao topar com o dedo numa pedra, ou na quina da
mesa. Sorria, reclamava um pouco da dor e continuava.
Ao ir ao banheiro, percebe que um dos cílios postiços permanece nos olhos,
nem sempre se despe por completo a personagem. Tira o objeto e o coloca em
cima da pia do banheiro. O toca suavemente. Meu amuleto. Apaga a luz e vai
procurar alguma coisa na geladeira.
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