Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 128

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 ao final, quando a reviravolta se dava a ela conseguia expulsar o marido de casa, jogando as roupas pela janela. Fui traída!, dizia aos espectadores. Era preciso incorporar a personagem, anti-Madonna renascentista, fazer-se humana, mesmo que n a sordidez, em que suspirava antes de dormir, se imaginando ganhando troféus e sendo reconhecida como artista. Não que ela não fosse, mas sempre vista como boazinha, atriz média, incapaz de segurar a densidade, a que se corta no ar com uma faca, planta forrageira dentre tantas outras do mesmo lugar. Sorriso doce, corpo mignon, protótipo incapaz de proferir uma palavra de baixo calão ao topar com o dedo numa pedra, ou na quina da mesa. Sorria, reclamava um pouco da dor e continuava. Ao ir ao banheiro, percebe que um dos cílios postiços permanece nos olhos, nem sempre se despe por completo a personagem. Tira o objeto e o coloca em cima da pia do banheiro. O toca suavemente. Meu amuleto. Apaga a luz e vai procurar alguma coisa na geladeira. https://www.facebook.com/operipatetico/ 123