Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Seite 126

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 Pão e Circo Edcarlos Coppola Ribeirão Preto/SP As pulseiras em cima da bancada, prateadas, rosas, azuis, brancas, vermelhas, ao lado dos produtos de maquiagem, ajudando-a a incorporar a personagem e que eram arrancados com um toque de fúria, sozinha no camarim, depois que todos os outros foram embora. Algumas lâmpadas amarelas contornavam o grande espelho aonde se enxergava, estando três queimadas e duas com luzes mais fracas. Juliana costumava, algumas vezes, ficar sozinha no teatro após os ensaios com a complacência do porteiro, que, aproveitando que seu ônibus demoraria ainda um pouco para o levar até a sua periferia, não achava ruim esperar mais um pouco até trancar o lugar e ir embora. Gostava de sentar com ela nas últimas fileiras e ali levar um dedo de prosa, coisas prosaicas como problemas com a esposa, os filhos que davam trabalho na escola, a mais velha cismando de namorar aos 14 anos, o dinheiro que mal dava para a subsistência. Ela, quando de bom humor, dava conselhos ao homem, separada e mãe de dois filhos que mal via por causa do trabalho e, sobretudo, por causa do ex-marido, com quem havia tido uma separação traumática. Os filhos resolveram ficar com o pai, e ela concordou. Aliviada. Sem o peso da criação dos pequenos, que já ficavam adolescentes e começavam a exigir mais do que ela poderia oferecer no momento. Ou em qualquer outro. Se levanta e volta para casa. Por causa do trânsito carregado do centro da cidade, prefere andar um pouco, quando disposta, ou ao menos pegar um ônibus até em casa, quando coloca a bolsa em cima da cadeira mais próxima, os sapatos vários jogados pelo chão do corredor, e liga a televisão, normalmente no canal que deixara ligado quando saiu, apenas pensando na personagem que conseguira às custas de muito esforço e charme jogado para o diretor, mesmo desconfiando que o homem seja gay. Tanto importasse, ela não gostava de fazer essas coisas para conseguir o que queria, mas lhe faltava a grande personagem: mesmo as protagonistas eram insossas, tinha cara de boa moça, de família, incapaz de uma vilania ou mesmo de roubar o namorado na outra na adolescência. Justo ela, que havia feito isso duas vezes com a prima, quando morou naquela cidade pequena aonde nunca mais pisou os pés e expulsa do colégio católico da cidade: Que coisa pornográfica, menina. Vamos falar com a reitora agora! Após levar uma boa reprimenda, já a quinta desde o começo do ano, acabou sendo expulsa para não contaminar o sacrossanto lugar, aonde as meninas de boa família rezavam o terço e se preparavam para ser donas de casa, 121