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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Pão e Circo
Edcarlos Coppola
Ribeirão Preto/SP
As pulseiras em cima da bancada, prateadas, rosas, azuis, brancas,
vermelhas, ao lado dos produtos de maquiagem, ajudando-a a incorporar a
personagem e que eram arrancados com um toque de fúria, sozinha no camarim,
depois que todos os outros foram embora. Algumas lâmpadas amarelas
contornavam o grande espelho aonde se enxergava, estando três queimadas e
duas com luzes mais fracas. Juliana costumava, algumas vezes, ficar sozinha no
teatro após os ensaios com a complacência do porteiro, que, aproveitando que
seu ônibus demoraria ainda um pouco para o levar até a sua periferia, não
achava ruim esperar mais um pouco até trancar o lugar e ir embora.
Gostava de sentar com ela nas últimas fileiras e ali levar um dedo de prosa,
coisas prosaicas como problemas com a esposa, os filhos que davam trabalho na
escola, a mais velha cismando de namorar aos 14 anos, o dinheiro que mal dava
para a subsistência. Ela, quando de bom humor, dava conselhos ao homem,
separada e mãe de dois filhos que mal via por causa do trabalho e, sobretudo,
por causa do ex-marido, com quem havia tido uma separação traumática. Os
filhos resolveram ficar com o pai, e ela concordou. Aliviada. Sem o peso da
criação dos pequenos, que já ficavam adolescentes e começavam a exigir mais
do que ela poderia oferecer no momento. Ou em qualquer outro.
Se levanta e volta para casa. Por causa do trânsito carregado do centro da
cidade, prefere andar um pouco, quando disposta, ou ao menos pegar um ônibus
até em casa, quando coloca a bolsa em cima da cadeira mais próxima, os
sapatos vários jogados pelo chão do corredor, e liga a televisão, normalmente no
canal que deixara ligado quando saiu, apenas pensando na personagem que
conseguira às custas de muito esforço e charme jogado para o diretor, mesmo
desconfiando que o homem seja gay. Tanto importasse, ela não gostava de fazer
essas coisas para conseguir o que queria, mas lhe faltava a grande personagem:
mesmo as protagonistas eram insossas, tinha cara de boa moça, de família,
incapaz de uma vilania ou mesmo de roubar o namorado na outra na
adolescência. Justo ela, que havia feito isso duas vezes com a prima, quando
morou naquela cidade pequena aonde nunca mais pisou os pés e expulsa do
colégio católico da cidade: Que coisa pornográfica, menina. Vamos falar com a
reitora agora!
Após levar uma boa reprimenda, já a quinta desde o começo do ano,
acabou sendo expulsa para não contaminar o sacrossanto lugar, aonde as
meninas de boa família rezavam o terço e se preparavam para ser donas de casa,
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