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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Palpite
Paulo Cesar Silva
Rio de Janeiro/RJ
Teve uma época, que trabalhei para um grande laboratório farmacêutico no Rio de
Janeiro, sendo responsável por cuidar, dentre outras coisas, da conservação dos jardins
e de uma reserva florestal que adornavam essa indústria. Nessa oportunidade, pude ver
e ter contato com muitas plantas exóticas, insetos diferentes e animais de pequeno
porte que volta e meia saíam da reserva para passear no parque industrial. Tínhamos
funcionários treinados para capturar e levar os pequenos animais de volta para a
reserva.
Numa manhã de primavera, eu estava avaliando rotineiramente a conservação dos
jardins, quando observei um vulto se movendo ao meu lado. Era a sombra de algo
voando, passando quase ao lado da minha cabeça. A princípio pensei que era um
pássaro, mas vi logo tratar-se de uma borboleta enorme, com envergadura das asas na
medida da junção dos meus polegares com os meus dedos indicadores. Parei e fiquei
observando aquele vôo lento e majestoso. Penso que era uma borboleta velha, pois os
seus movimentos para voar eram lerdos e tipo sobe e desce, até que ela pousou numa
planta. Então eu pude me aproximar dela e me surpreendeu a beleza e as cores
artisticamente desenhados em suas asas. As bordas pareciam que eram riscadas com
ouro e, partindo das bordas para o centro das asas ia intercalando azul marinho, azul,
azul mais claro, azul celeste e azul quase branco, que terminava em um meio círculo
vermelho que se completava com todo o mesmo processo na outra asa. Ela ficou como
que descansando alí e, depois de algum tempo, alçou vôo e foi embora para a mata.
Ah! Pena que naquele momento eu não tinha como fotografá-la.
No final do expediente, tomei o ônibus para ir para casa e, sentei-me ao lado de um
colega de trabalho, o seu Severino, um funcionário antigo da equipe, que cuidava das
matas do morro atrás da fábrica, contei-lhe o ocorrido. Ele me disse que nunca tinha
visto uma borboleta tão bela assim. A viagem foi curta, porque ele seguia no ônibus e eu
saltava para tomar outro para o meu bairro na zona norte.
Uns quatro dias se passaram, e numa manhã, nas minhas inspeções de rotina, ouvi o
Severino me gritar lá de cima do morro, dizendo que queria conversar comigo mais
tarde. Como ele era da minha equipe, e nunca gostei de deixar assuntos para depois,
gritei para ele descer e comecei a me encaminhar na sua direção para encurtar a
distância entre nós. Ele se aproximou ofegante da longa descida do morro e me disse
que, como era sexta feira, ele queria, no final do expediente, tomar umas cervejas
comigo. Eu falei, é seu aniversário? Ele disse: não! Se lembra da borboleta que o senhor
me contou? Falei: claro! E ele todo sorridente me explicou que, no dia seguinte, jogou
ela no bicho e acertou!
Eu costumava chegar em casa às 19 horas. Nessa sexta feira cheguei às 23 horas, feliz
pelo Severino, que com o dinheiro disse me que iria adiantar uma obrinha na sua casa.
Eu nunca mais vi outra borboleta tão linda assim.
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