Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 112

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 bandeja, ainda recebendo os cafunés. Com muito tato o “coelho” puxa delicadamente a bandeja, e volta pela mesma porta, retornando com mais uma refeição completa e servindo da mesma maneira. O homem nu fita aquele rosto de pelúcia, chorando ainda mais, ao passo que seu “garçom” aponta para o prato e sinaliza com a mão direita para comer; flexiona os dedos perto da boca e afagando a barriga rosada. A fome do homem é tanta que ele mais uma vez se atira por sobre o prato, mas dessa vez, o jantar reservava um número artístico; a tira colo, o homem fantasiado de coelho vem seguido por um pequeno mico de circo, trajando um coletinho vermelho e um chapeuzinho de fez em camurça. A curta coleira de ferro presa ao pescoço do sorridente bichinho não parece incomodar. O “coelho” apresenta o mico como um anfitrião circense numa noite de espetáculos e o homem divide sua atenção entre o final da sopa e a dupla a sua frente. Mais uma vez o “coelho” aponta a mão para o mico e o mesmo corresponde, retirando seu tarbush como se agradecesse a aplausos invisíveis. Ele recebe das mãos macias e encardidas do homem fantasiado, uma pequenina bicicleta. Monta e percorre poucos centímetros, deixando a mesma cair antes de completar um metro. O “coelho” impaciente o faz montar novamente na bicicleta e mais uma vez o animalzinho cai. O rosto sorridente permanece fixo olhando para o fracasso de seu companheiro de palco. Desistindo ele guarda a bicicleta no bolso da fantasia e do outra saca uma bola colorida, entregando-a ao símio que, já sabendo o que precisa fazer, equilibra-se no topo com maestria, abrindo os braços e finalizando o número para a alegria do “coelho”. O homem fantasiado aplaude euforicamente e o pega pela coleira, colocando-o em seus ombros e fazendo-lhe festa. O homem nu assiste ao bizarro festejo e encosta na cadeira quando o macaquinho é colocado na mesa, frente a três pequenos potes. Em um deles, o fantasiado coloca uma pequena esfera de alumínio, misturando freneticamente todos os três recipientes de forma que a atração encontre o material escondido. Com suas mãozinhas frágeis e peludas ele aponta para o pote do meio que é levantado revelando… nada. O “coelho”, tão impaciente como outrora, recoloca a esfera de alumínio e embaralha todas as opções novamente e para sua frustração, mais um fracasso. O pequeno mico lhe olha com um sorrisinho e o olho de plástico sorri, contrastando com o orgânico que se avermelha de ira. Mais impaciente ainda ele segura o macaco pela coleira e o suspende no ar com violência, gruindo e berrando no rosto do pequeno animal. Ao fim dos gritos 107