Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 111

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 O Homem que Chora na Tigela de Sopa Vitor Luiz Bento Leite Rio de Janeiro/RJ A sala branca media por volta de quatro metros de largura por cinco de profundidade. Paredes nuas e recém-pintadas denunciavam-se assim pelo ainda fresco odor de tinta. Ao centro uma mesa solitária de madeira bem polida com uma cadeira de ferro gelada. O piso era de um amarronzado fosco e áspero como uma lixa, seguido por um rodapé feito em mogno e decorando uma pesada porta de ferro gradeada. Pelas frestas das barras um homem trajando uma fantasia de coelho observa o interior do cômodo. Lá dentro, sentado na cadeira, está um homem nu, de uma magreza indescritível, com costelas que mais parecem as teclas de um piano velho. Ele choraminga e seu corpo é recheado de hematomas. Vez ou outra ele olha para o canto superior direito, abaixando a cabeça e choramingando mais, como se rezasse para Deus ou fizesse promessas aos santos. Seu rosto cadavérico detalha uma barba mendicante e sua cabeça retangular é enquadrada por um cabelo esgrouvinhado e caído pelo rosto. A porta é aberta e o “coelho” adentra devagar, analisando cada ângulo do ambiente. Sorridente e com um ar macabro, sua roupa é felpuda e incrivelmente suja e velha. A cabeça tem orelhas caídas e carcomidas e é tão suja e velha quanto o resto do traje. O olho esquerdo está quebrado, revelando assim um olho humano por trás do vazado de pano que quase não pisca; está consumindo por completo toda a cena numa mistura de deleite, prazer e poder. A porta bate e em suas mãos ele carrega uma bandeja com uma tigela de sopa fumegante, um pedaço de pão fresco, uma porção de algo empanado e uma taça amparando uma rosa vermelha. O cheiro deliciosamente torturante, desperta a atenção do cativo faminto que revira os olhos, dividindo a atenção entre a bandeja e o “coelho”. Gentilmente ele coloca a refeição na frente do homem nu. Ele contorce o rosto e chora ainda mais, primeiro baixo e soluçante, depois alto e desesperado, ainda olhando para o alto, vez ou outra. A fome é maior que o medo; ele se atira sobre a tigela de sopa e devora tudo com a rapidez de quem não come há semanas. Seu choro copioso pinga sobre tudo, enquanto o homem vestido de coelho lhe acaricia a cabeça como um pai que consola um filho após uma queda de bicicleta. O desesperado homem nu abaixa sua cabeça sobre a poça de lágrimas que se formara na 106