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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
indecifráveis, ele mais uma vez o coloca sobre a mesa e repete o embaralhar de potes. O
macaquinho lhe olha durante alguns segundos, olha para o homem nu, que nessa altura
fita o nada com olhar perdido, e volta-se para as três opções com medo e indecisão. Sua
mão pousa no potinho da direita. Ao levanta-lo revela-se um grande e assombroso…
nada. O rosto de pelúcia sorridente olha para o animal, que sorri de volta esperando
resposta.
O homem fantasiado de coelho agarra a coleira e rodopia no ar, enchendo a sala
com os gritos esganiçados do pequeno primata, que guincha e tenta segurar-se na
pequena coleira de couro. Segue-se o choque repetitivo do corpo magro e quebradiço do
animal contra a parede branca, que se tinge de vermelho e se decora com pedaços de
pelo. Mais alto que os gritos, o barulho dos ossos quebrado ao impactar com as
superfícies, compete pela audição dos presentes, até que apenas o som surdo e abafado
do último golpe polui as ondas sonoras. Contrariando as expectativas, o homem nu
continua olhando para o nada, sem esboçar nenhuma reação; talvez a fome lhe tivesse
deixado louco ou talvez já tenha visto situações piores. O homem vestido de coelho se
recompõe e recolhe a massa pastosa e disforme de pelos e vísceras. Acomoda o mingau
de macaco sobre a bandeja e retira a mesma da mesa. Ele observa o homem nu. Um
longo olhar é trocado e uma lágrima grossa cai do olho esquerdo do único membro da
plateia. O “coelho” abre a porta e leva consigo o que trouxera.
O homem nu, agora não tão faminto, eleva os olhos para onde olhara todo o
tempo. Numa espécie de prateleira na altura do teto, há uma criança sentada, também
usando uma máscara de coelho. Ela está imóvel desde que o homem vestido de coelho,
lhe depositara ali há dois dias.
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