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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
aparentava mais verde, mais viva. Foi a primeira vez que ele me fitou e eu
retribuí, seus olhos assumiram um brilho mágico. George me encantava desde o
trote estudantil , ao assumir a posição de defensor meu, levando-me a um lugar
seguro e desaparecendo como um herói que iria salvar outras vidas naquele dia.
Nunca recebi tamanha atenção, ainda que por pouco tempo, ele preencheu a
vaga de protetor que logo foi esvaziada com sua rápida partida. Depois de
relembrar aquelas cenas , era lógico imaginá-lo naquela marcha solene de fiéis,
uma alma tão bondosa...
George ainda me olhava e aos poucos, vi-me obrigada a desviar dos seus olhos
ao perceber o contorno que começava a surgir em sua boca. Pude conhecer,
apesar de longe, toda sua arcada dentária. Ele ria loucamente. Como aquelas
más crianças que gozam do moribundo que ao tombar, mete a cara no chão.
Ao passo que seus lábios sorriam, os meus se curvavam. Outros colegas o
acompanharam no riso. Percebi que as senhoras, as famílias, crianças (essas
foram as piores), todos riam de alguma coisa tal que o fizeram abaixar as
folhagens e esquecer daquele ritual comum à Festa de ramos.
A coisa tal era eu! Por que eu? O que havia em mim capaz de quebrar a entrada
triunfal de Jesus em Jerusalém? De repente, vi surgir entre a multidão, como
quem procura já rindo, sem nem saber por que, o motivo de tamanho disparate,
as lesmas, minhas colegas de apartamento, caçoando também de mim. Sim,
elas, que nunca foram praticantes da religião, estavam lá, bem à procura de
romances.
Lera recentemente O Corcunda de Notre-Dame e inferi do triste espetáculo que
assistia o pesar da humilhação vivida pelo protagonista. Naquele momento eu era
o “papa dos loucos’, o Quasímodo. Todavia, diferente desse, não me sentia
importante com aquela situação. Nunca fui do tipo” fale mal, mas fale de mim!”“.
Eu só queria sair daquilo.
Uma das colegas, a mais “puritana e devota”, veio a mim. Sua vontade de rir foi
mais forte do que sua personalidade amiga. Tive vontade de estraçalhá-la, mas
me contive, queria entender o que estava acontecendo.
- Di