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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
O Dia Seguinte
Sarita Bezerra
Juazeiro do Norte/CE
Sempre acordei com minha mãe gritando meu nome e depois que me mudei para
a cidade o despertador foi minha ajuda. Neste dia, porém, o calor foi meu auxílio.
Senti o suor escorrer da parte direita da minha testa em direção à boca e, antes
que acontecesse, usei forças reservadas para momentos que o pedisse -e ali foi
um deles- para virar de lado e mudar o curso da gota de suor. Com os olhos
entreabertos, percorri o âmbito à procura do ventilador e da razão pela qual ele
não estava funcionando. Não o encontrei.
Aos poucos, mexi os olhos, tão lentamente que pude ver o contorno dos meus
cílios vagarosos abrindo e fechando. Ainda sonolenta, porém, menos que antes,
percebi o despertador, bem como as horas que ele marcava. Eram 15h quando
pulei freneticamente da cama e corri em direção ao banheiro. Não dava tempo
para o banho, mas o cheiro agridoce impregnado a mim não me dera outra
escolha. Naquele projeto de banho, tentei compreender o porquê daquela
essência, todavia, a preocupação com a hora foi além. Nem me enxuguei, o calor
faria isso por mim, prestativamente.
Procurei meu fardamento, não era momento para se perder nada útil. Encontrei-
o embolado ao chão, mas não podia parar pra pensar naquele outro mistério e
me vesti. Dividia o apartamento com outras duas colegas, sempre adiantadas, e
não escutara ainda o grito de nenhuma delas me chamando. Com uma enorme
satisfação em estar mais adiantada que elas (mesmo que ainda atrasada), corri
pelo corredor, gritando nomes pejorativos que acabara de criar:
- Acordem, lesmas! Vocês estão atrasadas.
Não havia tempo para o café, comeria qualquer coisa na escola. Peguei meu
material que, graças ao bom Deus, já estava no centro da sala e fui correndo ao
terminal. Lá conclui que realmente me atrasara e que, na verdade, as lesmas já
haviam me chamado, eu que não acordara.
Tudo estava deserto. Resolvi esperar o próximo ônibus da linha, visto que o
escolar, com certeza, já havia passado. “Antes tarde do que nunca”, pensei.
“Agora irei gastar com o lanche e condução. O dia começou bem!”, pensei
sarcasticamente. Tirei do bolso meu Iphone 7, pus Sweet Child O’Mine do Guns e
tentei relaxar.
Aos poucos foram surgindo pessoas. Transeuntes vestidos de branco e com
folhagem à mão despontavam da parte esquerda do terminal. Quis me assustar,
mas eram idosas, algumas famílias aparentemente estruturadas, adolescentes e
casais de namorados. Todos de branco e folhagens. A rua logo ficou cheia e
formou-se uma procissão. Era tão estranho. Se eu não me torturasse com tapas
no rosto e beliscões diria que estava sonhando.
Surgiu, então, em destaque na procissão, ele. Todos de branco, mas parecia que
ele vestia um branco especial, mais brilhoso. Todos com folhagens, mas a dele
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