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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
de profissão mais importante do mundo. Até concordo, em partes, mas isso não
é um motivo para ele optar por não gastar a voz falando um nome a mais. Já era
o fim da aula e pudemos ouvir o som que indicava que havia chegado os trinta
minutos mais tortuosos do dia; o intervalo.
– Todo mundo para fora, eu tenho que trancar a sala – a faxineira dizia isso
com uma autoridade temporária. Não sabia o real motivo de ser obrigado a sair
da sala, aqui é ou não é a minha segunda casa? Será que estão me obrigando a
criar uma sociabilidade? Mas sociabilidade forçada não presta, não funciona, acho
mesmo que eles têm medo de manter os alunos em sala para que eles não
roubem os pertences dos que não estiverem lá. Isso seria um tiro no pé, seria a
comprovação que a escola não acredita na sua própria educação.
Durante o intervalo, eu só fazia fugir daquilo que me afligia; fugia dos
valentões no corredor, das meninas que riram da minha cara, da diretora que
ficava vigiando se tinha alguém fazendo algo errado, dos professores furando a
fila da lanchonete, estava dentro da escola para fugir dos males sociais que eu
encontrava aqui, algo paradoxalmente contraditório. Eu sempre subia para o
último andar e ficava lá sentado nos degraus esperando o tempo passar. Meu
incomodo eram os casais que iam para lá aproveitar do mesmo isolamento do
qual eu procurava. Eles se beijavam de forma enlouquecida, era quase a
preparação para o sexo, e o pior, não me respeitavam, minha estadia ali era
completamente ignorada, parece que jovens com ímpeto sexual não conseguem
ver nada ao seu redor, juro que no próximo intervalo eu trarei um pacote de
camisinha e um painel luminoso indicando a minha presença. O sinal do intervalo
bateu, era hora de voltar para sala.
– Todos vocês estão lembrados na nossa semana de conscientização dos
males da depressão – um professor magrelo girando uma caneta esferográfica e
andando de um lado para o outro falava – nós teremos palestras, vídeos,
apresentações artísticas, leituras de texto – ele era o padrinho da nossa sala,
estava mais preocupado em parecer um bom orientador do que na produção dos
trabalhos, pois eu vivia com a mão levantada para conseguir que ele corrigisse o
meu texto e nunca fui atendido – todo mundo já sabe a sua função, vamos
começar com a leitura dos textos em sala, seus pais estarão presentes, então
caprichem. Ele deu continuidade à aula e o dia escolar, finalmente, havia chegado
ao seu fim. Fui andando para a casa, morava bem perto, mais ou menos, atrês
quadras dali. Passei por alunos que, surpreendentemente, ostentavam um sorriso
de satisfação por todo aquele ambiente, algo inimaginável na minha cabeça. O
que me fazia sorrir era essa breve caminhada, pois podia aproveitar de uma
paisagem arborizada e de ar puro, duas coisas que estão entrando em extinção.
Minha casa era quase uma caverna; pela manhã estava completamente
vazia, pela tarde via somente a minha presença e lá pelo meio da noite meus
pais chegavam. Eles não andam muito bem, tentam me blindar das frequentes
brigas, mas o número de lenços encharcados de lágrimas pelo chão é um sinal de
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