Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Página 105
LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
como a relação dos dois está se deteriorando. Não sabia o que fazer, como
ajudar, por conta disso, fazia nada.
A ideia de ter minha mãe vendo minha leitura (meu pai trabalha muito e
nunca pode faltar) era excitante, talvez acabaria um pouco com a má impressão
escolar formada nos últimos anos. Por conta disso, fui melhorar o meu texto, ver
como poderia deixá-lo mais atraente, mais mágico. Entre na biblioteca do papai,
procurei por mais referências, já podia ouvir os elogios do professor e a turma
me aplaudindo de pé, seria fantástico, minha mãe me presentearia com um
sorriso lindo de gratidão e orgulho. Uma explosão de ansiedade me invadiu,
fiquei tão focado na minha missão que nem vi o dia passando em uma velocidade
imensa.
Já era noite, corri para o quarto da minha mãe para avisá-la de amanhã,
mas ela estava dormindo, roncava alto, parecia ter tido um dia bem longo. Deixei
um bilhete do lado do seu celular, tudo bem explicado e esmiuçado e em um local
no qual tinha a certeza de que ela veria. Agora era hora de voltar ao trabalho...
O sol raiou, as luzes atravessaram as cortinas e invadiram o meu quarto,
me mandando sair da cama, já havia algum tempo que minha mãe não vinha me
acordar, estava querendo que meu senso de responsabilidade despertasse o mais
cedo possível. Corri para o quarto dela e vi que nem o celular, nem o bilhete e
nem ela estavam lá, espero que tenha lido. Tomei um café rápido e revisei – pela
milésima vez – o meu texto. Em anos, foi a primeira vez que sentia novamente
uma vontade impressionante de estar na escola. Tranquei a porta com um belo
sorriso, aquele seria um grande dia.
Poucos alunos haviam chegado, mas a sala já estava aberta. Entrei, dei
bom dia, ninguém me respondeu, dessa vez era justificável, as pessoas estavam
tão focadas nos ajustes finais que não conseguiram tirar a atenção dos seus
afazeres. Fiquei olhando pela janela e tive uma grata surpresa, ou melhor, duas;
não só minha mãe veio me ver, meu pai também. A sala foi enchendo aos
poucos, os pais já estavam posicionados em seus lugares e o professor se
preparava para dar início às atividades:
- Antes de abrirmos o dia nacional de consciência dos males da depressão,
vou pedir para a aluna Laura ler um texto especial que ela mesmo fez e me pediu
para usar como abertura do evento. Eu queria ser o primeiro, mas não tem
problema, Laura escreve muito bem, não será nenhum sacrifício ouvi-la. Ela
começou:
– Hoje é o dia de conscientização dos males da depressão, mas nós
chamamos de Dia do Yuri, em homenagem à memória do filho do senhor e da
senhora Damásio. Depois do episódio de suicídio, muita coisa mudou, sentimos
muito a falta dele e acho que todos carregamos um pouco da culpa. Ele só era
mais uma criança querendo viver, mas o mundo não é tão fácil quando não se
enxerga uma mão estendida, uma mão que te