Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Page 103

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 O Dia do Yuri Anderson Shon Salvador/BA Olá, meu nome é Yuri Machado Souza Damásio, um nome incomum contrastando com um garoto muito comum. Tenho 12 anos, estou no 8° ano do ensino fundamental, sempre fui uma criança muito inteligente, por isso minha mãe exigiu que as séries iniciais me adiantassem, evitando o que ela chamava de “perder tempo pintando figuras do Mickey”. Não sou daqueles que ama a escola, as coisas ainda são do mesmo jeito, os professores brigam com a tecnologia e arrumam a sala obedecendo uma ordem alfabética, o que me deixa na última carteira, atrás somente de um Yuri Alencar. Sempre torci que na minha sala estudasse algum Ziraldo, Zeca, Zeferino... mas essa sorte nunca me alcançou. As horas aqui dentro passavam lentamente e a minha triste inadaptação a essa falida convivência tornava tudo ainda pior. Aquele clichê dos populares acéfalos passeava pelos corredores, as aulas não instigavam, pelo contrário, pareciam canções de ninar, o chato é que sempre havia um diretor que te dedurava aos seus pais dizendo que não conseguia entender por que as crianças não valorizavam aquele espaço de ensino. A aluna da sala que ganhou o meu coração não fez questão de aproveitá-lo, ele estava tão colorido, com hidrocor na borda, feito com todo amor, mas ela mostrou para suas amigas, deu risada e o jogou fora. Eu daqui, do fundo da sala, vivia e revivia tudo isso na minha memória, pensava nessa realidade ansiando a hora de me despedir, de dizer tchau, a escola nunca foi um lar para mim, por isso, minha maior vontade é que chegue o dia em que eu possa me despedir. - Sâmara... - Presente! - Tamires... - Presente! - Victor Conceição... - Tô aqui. - Responda, presente, por favor. - Presente. - Victor Almeida... - Presente. - Yuri... – eu nunca sabia se ele estava me chamando, chamando os dois juntos, ignorando a presença de alguns de nós ou só com preguiça mesmo. Como sempre respondíamos juntos, posso concluir que ele aproveitou dessa saída para exercer sua fadiga tradicional justificada pelo baixo salário e por aquele discurso 98