Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 99

LiteraLivre nº 4 gordas” como se diz, a comida era farta e a família podia se dar ao luxo de ter até empregados. Enquanto comia, o garoto lembrava-se das vezes em que tentara monta- lo, ele saía grasnando e rebolando de asas abertas, das vezes em que estando contrariado, sentara-se na escada da porta de entrada e Guido vinha se aconchegando, sempre o abraçava, ele deixava-se abraçar, como se soubesse de sua tristeza e quisesse confortá-lo. - Filho, coma! Já está frio, assim não conseguirá terminar de comer e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar. O garoto dá mais uma mordida, a garganta doí a cada engolida. A mãe o observa, sabia o que Guido representava para toda a família, era a alegria dos dois filhos. Primeiro tivera uma menina, cinco anos depois, quando já não pensava ter mais filhos ficou grávida, já se passara dez anos, contempla seu corajoso homenzinho tentando alimentar-se do melhor amigo... Dias difíceis aqueles, a guerra trouxe escassez de alimentos em toda parte, não há trabalho por perto e o esposo teve que ir para longe em busca de sustento. Maria a mucama que lhes servia, se recusara ir embora, não tinha para onde ir, fora autora do triste ato em preparar a ave para o almoço, a dois dias não havia uma refeição decente, comiam apenas um pequeno naco de pão sem fermento, preparado com o resto de trigo da despensa. - Mãe posso perguntar algo? - Pode querido! O quer saber? - O Guido sentiu muita dor? - Cada vez que engulo, sinto como se ele estivesse sofrendo. - Não filho, acho que ele não sentiu dor. Maria fez um serviço rápido e penso que não tenha dado tempo para ele sentir nada. Agora ele deve estar no céu dos bichos, nadando em um lago azul. Você come apenas a matéria que 94