Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 100
LiteraLivre nº 4
ele deixou para alimentá-lo, foi por uma boa causa, e, ele também sentiria
fome se continuasse aqui, não teríamos como alimentá-lo.
- Está bem mamãe. Sei que foi preciso, mas, não posso deixar de pensar
que eu o traí. Ele sempre foi meu amigo, nunca me deixou sozinho e agora...
A mãe compartilha do sofrimento do filho, sabia que não poderia aplacar
aquela dor, abraça-o e juntos choravam, se mantivera forte até aquele
momento, porém, não suportava mais ver o quanto ele sofria. A filha mais
velha até então assistira calada, se junta a eles n’um abraço triplo, aquele
seria um momento inesquecível. Os três começam a recordar as peripécias de
Guido e acabam deixando de lado as lágrimas.
- Lembra o dia em que ele entrou no meu quarto e acabou sujando todo
o tapete com os pés cheios de lama e você disse que a qualquer hora o
colocaria na panela?
- E você maninho? Sempre queria fazer dele seu cavalinho, quando isso
ocorria ele sempre corria para o laguinho em busca de sossego. Dizia a irmã
rindo, entre lágrimas que teimaram em retornar aos olhos.
- Dona Joana posso retirar a mesa? Pergunta Maria cabisbaixa.
Entrou acanhada com aquele jeito de avó, ninguém sabia o quanto lhe
custara o feito. Com lágrimas nos olhos matara e prepara a ave, e, enquanto o
fazia, também lembrava-se das peraltices que o garoto aprontava com Guido,
em uma delas ele o pintara de azul, tinta com a qual o patrão pintava a parte
externa da casa, foi necessário muito sabão até conseguirem remover toda
tinta.
- Pode tirar Maria. Acho que ninguém vai comer mais. Guarde as sobras
para o jantar, quando a fome apertar ainda teremos o que comer.
O garoto pensou na resposta da mãe. Será que ainda teria que passar
por toda aquela tortura novamente? Só em pensar seus olhinhos se encheram
de lágrimas mais uma vez.
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