LiteraLivre n º 4
e senti correr em mim todo o sangue do corpo de uma só vez, lembrei-me de tantas coisas em meu corpo que não sabia mais que funcionavam: eu tinha pelinhos que se arrepiavam, eu tinha um cheiro natural sem perfume, eu tinha a pele macia, meu coração podia bater mais forte do que o rotineiro, eu era eu como há muito tempo não vinha sendo, um corpo se fundindo com a vida, entrando e deixando entrar muita vida. Senti o gosto de estar viva novamente. E como é bom quando um ser que nasceu para viver acima de qualquer evidência, se sente vivo. Nessa hora a gente pensa: para o inferno com toda a filosofia, com todas as teorias e com a necessidade de espiritualizar-se antes de tudo. Eu queria viver, queria viver pra sempre daquele jeito: viva. Queria que o filme me ensinasse para vida toda, que não fosse só mais um filme com uma narrativa banal que logo se esquece, mas que fosse um ponto de ruptura, um marco de um recomeço onde eu não me deixaria mais sem ar por tanto tempo. Onde eu reconsiderasse viver como prioridade. Sei que vai ser sempre especial, foi o primeiro filme a me colocar nessa condição e quem sabe seja o único a ter tal poder. Tenho consciência de que não posso assisti-lo todos os dias como gostaria, não tenho esse direito, e se o tivesse, com o tempo e a repetição, tenho medo de que viesse a perder o brilho do começo tornando-se rotina, se é que um filme como esse poderia ter para mim significado monótono e desinteressante. Mas quem veria o mesmo filme para sempre? Seria considerado, no mínimo, obsessão. Terei de me conformar em passar dias sem filme algum e em outros terei que assistir a outro filme, quem sabe tentando encontrar nele sensação parecida. Mas sei que não vai ser fácil, não está sendo. Depois de viver o que mais pode se esperar dessa vida? Manter-me semi-viva tem sido tão difícil quanto aceitar a morte completa. Quem sabe alguém consiga me passar outra visão sobre o filme, porque da
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