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LiteraLivre nº 4
ele de maneira mais facilitada. Não é que o enredo em si tenha sido brilhante,
nem isso, o filme até pareceu-me mais simples do que poderia ser. Mas a
originalidade do que vivi ali naquela poltrona de cinema foi o que me
transportou às sensações que eu já havia esquecido que existiam. Foi uma
originalidade que eu sentia em mim que existia, mas que nunca tinha provado
e já me duvidava ser real. Mas tão nova assim? Pois é, foi isso que me
assustou também... eu... tão nova assim, na casa dos trinta anos, recém
chagada nos trinta, e já me tinha colocado à estabilizar-me na vida como se
filmes como aquele não fossem mais para minha maturidade, ou não fossem
suportados mais pela minha bagagem de vida. Ou pior, que não teriam sido
feitos para pessoas como eu assistirem.
Mas ele era pra mim, perfeito pra mim, em tantos sentidos... nada foi forçado,
não precisei tentar entendê-lo, gostá-lo, senti-lo... tudo era natural, simples e
intenso, superficial e profundo, tudo ao mesmo tempo, misturado e combinado
perfeitamente. E se eu pudesse escolher... seria ali mesmo que eu desejaria
estar, por isso sei que estava no lugar certo, no filme certo, e mesmo tendo
causado tanto efeito, jamais poderia me arrepender de tê-lo assistido. Não
poderia me arrepender porque o que se vive, sendo bom não pode arrepender-
se, o arrependimento não é pensamento só, é sentimento, e aparece não por
convicção, mas por necessidade.
Não há necessidade de arrepender-se do que faz bem, do que dá vida.
Acredito ser essa a melhor palavra para explicar o que recebi desse dia: Vida.
Foi como ter ido à superfície depois de tanto não mais respirar, eu já estava
como quando não se tem consciência mais sobre si mesmo e a morte é
questão de fração de segundos, naquele momento onde o ar precisa entrar
imediatamente para reaver todos os sinais vitais. De tanto ficar nas
profundidades eu não sabia mais que havia vida e não queria mais entendê-la,
estava pronta a viver sem ar para todo o sempre. Até que respirei novamente
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