Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 89

LiteraLivre nº 4 ele de maneira mais facilitada. Não é que o enredo em si tenha sido brilhante, nem isso, o filme até pareceu-me mais simples do que poderia ser. Mas a originalidade do que vivi ali naquela poltrona de cinema foi o que me transportou às sensações que eu já havia esquecido que existiam. Foi uma originalidade que eu sentia em mim que existia, mas que nunca tinha provado e já me duvidava ser real. Mas tão nova assim? Pois é, foi isso que me assustou também... eu... tão nova assim, na casa dos trinta anos, recém chagada nos trinta, e já me tinha colocado à estabilizar-me na vida como se filmes como aquele não fossem mais para minha maturidade, ou não fossem suportados mais pela minha bagagem de vida. Ou pior, que não teriam sido feitos para pessoas como eu assistirem. Mas ele era pra mim, perfeito pra mim, em tantos sentidos... nada foi forçado, não precisei tentar entendê-lo, gostá-lo, senti-lo... tudo era natural, simples e intenso, superficial e profundo, tudo ao mesmo tempo, misturado e combinado perfeitamente. E se eu pudesse escolher... seria ali mesmo que eu desejaria estar, por isso sei que estava no lugar certo, no filme certo, e mesmo tendo causado tanto efeito, jamais poderia me arrepender de tê-lo assistido. Não poderia me arrepender porque o que se vive, sendo bom não pode arrepender- se, o arrependimento não é pensamento só, é sentimento, e aparece não por convicção, mas por necessidade. Não há necessidade de arrepender-se do que faz bem, do que dá vida. Acredito ser essa a melhor palavra para explicar o que recebi desse dia: Vida. Foi como ter ido à superfície depois de tanto não mais respirar, eu já estava como quando não se tem consciência mais sobre si mesmo e a morte é questão de fração de segundos, naquele momento onde o ar precisa entrar imediatamente para reaver todos os sinais vitais. De tanto ficar nas profundidades eu não sabia mais que havia vida e não queria mais entendê-la, estava pronta a viver sem ar para todo o sempre. Até que respirei novamente 84