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LiteraLivre nº 4
Na Estrada
Tatiana Angèle de Carvalho
Bordeaux - France
A superfície me é um pouco desconhecida, mas tão importante quanto seu
oposto. Sinto-me desajeitada nela, muito visível e sem utilidade, tento
complicá-la e ela é simples, meus olhos doem com a claridade e volto correndo
para o fundo onde fui feita para viver, onde aprendi a respirar controladamente
e a enxergar os contornos do que está em ambiente escuro. Mas preciso
entender os viventes da superfície tanto quanto preciso me entender; Como
conseguem boiar tanto tempo sem perguntarem-se o que tem lá embaixo onde
ninguém
quer
ver?
E
como
precisam
de
ar
constantemente...
constantemente... Onde nos encontraremos? No meio do caminho? Entre a
profundidade e a superfície? Ou em minhas breves e forçadas idas à
superfície? Quem sabe o contrário: venham até mim por curiosidade, ou para
tentarem mostrar-me que a superfície pode ser mais divertida e ágil, e que um
passeio até lá nada de mal pode me trazer.
Eu gosto dos encontros, me fazem bem, dão-me uma visão completamente
diferente de tudo que sei ser. Insinuam-me que, quem sabe, o que tenho como
problema não seja e existam outros que eu não estava a considerar.
O último desses encontros foi tão mágico como transformador. Foi um encontro
comigo mesma, com meu lado que gosta da superfície, que sonha em um dia
morar lá e deixar para trás todo esse meu caminho tão complexo quanto uma
teia de aranha das bem projetadas.
Foi um filme que vi...
Um dia banal, um filme banal, num cinema banal; e pela primeira vez na vida,
sai de casa sozinha pra ir ao cinema. Poderia ter sido qualquer coisa, mais um
filme... mas não foi. Às vezes queria que tivesse sido só um filme e lidaria com
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