Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | 页面 88

LiteraLivre nº 4 Na Estrada Tatiana Angèle de Carvalho Bordeaux - France A superfície me é um pouco desconhecida, mas tão importante quanto seu oposto. Sinto-me desajeitada nela, muito visível e sem utilidade, tento complicá-la e ela é simples, meus olhos doem com a claridade e volto correndo para o fundo onde fui feita para viver, onde aprendi a respirar controladamente e a enxergar os contornos do que está em ambiente escuro. Mas preciso entender os viventes da superfície tanto quanto preciso me entender; Como conseguem boiar tanto tempo sem perguntarem-se o que tem lá embaixo onde ninguém quer ver? E como precisam de ar constantemente... constantemente... Onde nos encontraremos? No meio do caminho? Entre a profundidade e a superfície? Ou em minhas breves e forçadas idas à superfície? Quem sabe o contrário: venham até mim por curiosidade, ou para tentarem mostrar-me que a superfície pode ser mais divertida e ágil, e que um passeio até lá nada de mal pode me trazer. Eu gosto dos encontros, me fazem bem, dão-me uma visão completamente diferente de tudo que sei ser. Insinuam-me que, quem sabe, o que tenho como problema não seja e existam outros que eu não estava a considerar. O último desses encontros foi tão mágico como transformador. Foi um encontro comigo mesma, com meu lado que gosta da superfície, que sonha em um dia morar lá e deixar para trás todo esse meu caminho tão complexo quanto uma teia de aranha das bem projetadas. Foi um filme que vi... Um dia banal, um filme banal, num cinema banal; e pela primeira vez na vida, sai de casa sozinha pra ir ao cinema. Poderia ter sido qualquer coisa, mais um filme... mas não foi. Às vezes queria que tivesse sido só um filme e lidaria com 83