Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 85

LiteraLivre nº 4 filhos”. Nem os filhos seguraram Madalena e ela foi pro mar. Ele fica na espera, vendo na vela, um adeus de Madalena. Talvez cuide ele dos filhos... “Flor da idade” de Maria “a roupa suja da cuja se lava no meio da rua” Nada tem de privado. Ela “dança, balança, avança e recua (...) despudorada, dada, à danada agrada andar seminua (...) a porta dela é sem tramela a janela é sem gelosia”. Nesses dois registros de mulheres/personagens ocorre o excesso. A busca da completude se apresenta pelo mais e, pelo menos, e tanto esse mais ou esse menos não ocorre na justa medida, é sempre um hiper. Se no primeiro caso as mulheres subserviente/românticas tudo dão sem nada, ou quase nada em troca, na busca de uma fusão com o ser amado, no segundo caso elas ultrapassam os limites daquilo que a tradição reservou como espaço e conduta feminina e superam, como se bastassem a si mesmas, independente de qualquer norma social cerceadora. Lembremo-nos do mito do hermafrodito e da paixão que esse belo semideus despertou na ninfa Samácida, quando ela o viu banhar-se nu. Como ele a recusou e sua paixão era tão desenfreada, pediu a Zeus que a fundisse ao amado, aprisionando ambos em um só corpo. Também a figura do andrógino, em Platão, pode nos ajudar e entender essa imagem da completude nirvânica. Os andróginos eram criaturas primordiais com força e poder imensos. Essa exuberância fez com que eles desejassem subir ao Monte Olimpo, morada dos deuses. Tal “hibris” ou desmedida indignou o rei dos deuses olímpicos que decidiu cortar ao meio essas criaturas que reuniam em si mesmas, num único corpo, os duplos atributos, “andro” (masculinos) e “gyne” (femininos). Cindidos em duas partes ficaram profundamente infelizes, vagando à deriva e passaram a buscar, compulsivamente, sua outra metade. Essa história, para ninar incautos, nos acompanha na busca da outra metade de nossa laranja e se perpetua no imaginário coletivo. Já a psicanálise analisa 80