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LiteraLivre nº 4
filhos”. Nem os filhos seguraram Madalena e ela foi pro mar. Ele fica na espera,
vendo na vela, um adeus de Madalena. Talvez cuide ele dos filhos... “Flor da
idade” de Maria “a roupa suja da cuja se lava no meio da rua” Nada tem de
privado. Ela “dança, balança, avança e recua (...) despudorada, dada, à
danada agrada andar seminua (...) a porta dela é sem tramela a janela é sem
gelosia”.
Nesses dois registros de mulheres/personagens ocorre o excesso. A busca
da completude se apresenta pelo mais e, pelo menos, e tanto esse mais ou
esse menos não ocorre na justa medida, é sempre um hiper. Se no primeiro
caso as mulheres subserviente/românticas tudo dão sem nada, ou quase nada
em troca, na busca de uma fusão com o ser amado, no segundo caso elas
ultrapassam os limites daquilo que a tradição reservou como espaço e conduta
feminina e superam, como se bastassem a si mesmas, independente de
qualquer norma social cerceadora.
Lembremo-nos do mito do hermafrodito e da paixão que esse belo
semideus despertou na ninfa Samácida, quando ela o viu banhar-se nu. Como
ele a recusou e sua paixão era tão desenfreada, pediu a Zeus que a fundisse
ao amado, aprisionando ambos em um só corpo. Também a figura do
andrógino, em Platão, pode nos ajudar e entender essa imagem da completude
nirvânica. Os andróginos eram criaturas primordiais com força e poder
imensos. Essa exuberância fez com que eles desejassem subir ao Monte
Olimpo, morada dos deuses. Tal “hibris” ou desmedida indignou o rei dos
deuses olímpicos que decidiu cortar ao meio essas criaturas que reuniam em si
mesmas, num único corpo, os duplos atributos, “andro” (masculinos) e “gyne”
(femininos). Cindidos em duas partes ficaram profundamente infelizes,
vagando à deriva e passaram a buscar, compulsivamente, sua outra metade.
Essa história, para ninar incautos, nos acompanha na busca da outra metade
de nossa laranja e se perpetua no imaginário coletivo. Já a psicanálise analisa
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