Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 86

LiteraLivre nº 4 que somos marcados pela falta fundante, inominável, objeto perdido e que nunca encontrará sua reposição. Na experiência do complexo de castração a perda é necessária para que se possa sair do assujeitamento á mãe e negociar com a cultura. Todavia, é preciso aprender a gerir a falta pois ao longo da vida o ser humano carrega esse sentimento de incompletude. Preencher essa falta é uma impossibilidade. As mulheres subordinadas, das músicas de Chico Buarque, tentam obliterar a falta impreenchível aprisionando-se ao homem amado, derretendo-se no outro, mas o outro, por mais amado e amante nunca lhe poderá costurar a falta latente. Assim, toda a entrega e apagamento de si própria gera sofrimento e alienação, mas também gozo. Já as mulheres buarquianas que extrapolam os limites socialmente impostos, em oposição à demanda de afeto, na fusão tentam remendar a falta em si próprias, de maneira fálica, numa onipotência narcísica. Ao buscar a completude em si mesmas não abrem espaço para o outro. Elas apresentam um semblante que falseia a infelicidade, com uma máscara de leveza e soltura, que beira a irresponsabilidade para com o outro e para consigo próprias. A liberação de energia dessas mulheres é uma força primitiva e resoluta, mas que também não resolve a questão da falta primordial. Acreditam que negando a falta a obliteram, mas não passa de uma ilusão de onipotência que, no fundo, alivia e adia o sofrimento e a solidão. Como todas as classificações são capengas, e há coisas que não comportam nos precários limite que fixam, há aquelas mulheres que ficam de fora e merecem outro olhar. É o caso de “Olhos nos olhos”, “Atrás da porta”, “De todas as maneiras”, “A história de Lily Braun,” entre outras letras de Chico Buarque. São algumas das mulheres que transitaram entre o mais hiper e o menos hiper, ou do menos hiper para o mais hiper. Elas encontraram outras formas de alívio do sofrimento pelo amor perdido: “dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar seu nome e te humilhar”, “Quero ver como suporta me ver tão 81