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LiteraLivre nº 4
correios, arautos, alcoviteiras, alcaguetas e proxenetas... E ouviremos os
éditos em plena praça pública, quem sabe pela boca do próprio Nero ou pela
boca dos seus muitos arautos. E leremos saborosamente as nossas doces
cartas, embrulhadas no conforto dos envelopes; e selaremos as nossas doces
cartas com a nossa gosma de saliva ou com cola de trigo. Nero há muito que
já possui a sua chancela real! E leremos nossas cartas anônimas uns aos
outros, dando-nos a saber uns dos outros; e leremos nossas ridículas cartas de
amor, porque todas as cartas de amor são ridículas... Reaprenderemos com os
poetas, com os romancistas, com os filósofos, a delicada arte de deitar no
papel o enlevo da palavra. E viva a palavra escrita! Viva! E viva a palavra
falada tête-à-tête! Viva!... Quem? Quer falar com quem? Ele não está! Quem
está falando aqui?... Sandemos! Sandemos não quer mais assistir a essa
miséria dos homens, essa miséria que os faz se debruçarem em solilóquios
infindáveis, de boca escancarada no fone deste detestável maquinário, este
pequeno e medíocre ditador que dissolveu no homem o valor de sua palavra!
Senhoras e senhores, companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, abaixo à
conectividade ilusória! Abaixo à manipulação virtual da palavra! Abaixo ao
logro da sociabilidade instantânea! Abaixo à caduquice do mundo globalizado!
Todos juntos, de mãos dadas, afoguemos todos os celulares no chafariz da
Praça da Sé! Dia vinte de maio! O grande dia, o dia da libertação! Quem? Ele
não está! O que? Onde pode me encontrar? Qual o que! Adiante-se ao grande
dia e me mande uma c