Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 80

LiteraLivre nº 4 correios, arautos, alcoviteiras, alcaguetas e proxenetas... E ouviremos os éditos em plena praça pública, quem sabe pela boca do próprio Nero ou pela boca dos seus muitos arautos. E leremos saborosamente as nossas doces cartas, embrulhadas no conforto dos envelopes; e selaremos as nossas doces cartas com a nossa gosma de saliva ou com cola de trigo. Nero há muito que já possui a sua chancela real! E leremos nossas cartas anônimas uns aos outros, dando-nos a saber uns dos outros; e leremos nossas ridículas cartas de amor, porque todas as cartas de amor são ridículas... Reaprenderemos com os poetas, com os romancistas, com os filósofos, a delicada arte de deitar no papel o enlevo da palavra. E viva a palavra escrita! Viva! E viva a palavra falada tête-à-tête! Viva!... Quem? Quer falar com quem? Ele não está! Quem está falando aqui?... Sandemos! Sandemos não quer mais assistir a essa miséria dos homens, essa miséria que os faz se debruçarem em solilóquios infindáveis, de boca escancarada no fone deste detestável maquinário, este pequeno e medíocre ditador que dissolveu no homem o valor de sua palavra! Senhoras e senhores, companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, abaixo à conectividade ilusória! Abaixo à manipulação virtual da palavra! Abaixo ao logro da sociabilidade instantânea! Abaixo à caduquice do mundo globalizado! Todos juntos, de mãos dadas, afoguemos todos os celulares no chafariz da Praça da Sé! Dia vinte de maio! O grande dia, o dia da libertação! Quem? Ele não está! O que? Onde pode me encontrar? Qual o que! Adiante-se ao grande dia e me mande uma c