Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 79

LiteraLivre nº 4 Manifesto do Rinoceronte Tiago Feijó Guaratinguetá/SP Trim, trim... trim, trim... trim, trim... – Alô... alô... Quem? Quer falar com quem? Ele não está! Como? Se eu achei o seu celular? Ele não está! O que? Este celular é seu? Bom... que bom! Que bom que você me encontrou, porque eu tinha mesmo que lhe falar umas coisas... Dia vinte de maio, deste ano de nosso senhor Jesus Cristo, acontecerá uma enorme manifestação na Praça da Sé; na verdade, um ato manifestatório. Neste santo dia de luz, milhares e milhares de pessoas jogarão os seus celulares no chafariz da Praça da Sé. Vamos abarrotar o chafariz da Praça da Sé com uma copiosa quantidade de celulares, de todos os tipos e de todas as marcas, de todas as cores e tamanhos, de toda e qualquer operadora! Sim, os celulares todos! O do Rei, o do impostor, o do vagabundo, o do caixeiro- viajante, o do leproso de Pouso-Alto, o do sacristão, o do guardador da catacumba, o da prostituta, até o do próprio Senhor Jesus Cristo, se ele voltar como disse que volta, e o seu, e o meu... Alias, o meu não, visto que nunca tive um! Mas agora tenho o seu e é isto que devo fazer com ele: afundá-lo na água cristalina do chafariz da Praça da Sé... Todos juntos, de mãos dadas, não seremos poetas de um mundo caduco... O que? Se eu estou em São Paulo? Mas é claro que não, pacóvio! Estou aqui mesmo, em Guará! Olha, este iluminado dia, o vinte de maio, marcará o início do fim de um recomeço: todos de volta ao cheiroso papel e ao bom tinteiro, mãos à pena, e escreveremos uma infinidade de cartas, missivas, bilhetes, rascunhos... E retornarão à labuta, ao extinto ofício, os carteiros, mensageiros, estafetas, pombos- 74