Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 66

LiteraLivre nº 4 pareceu que só ele vira a carteira. Recolheu-a. Gorda de tantos dólares, ienes e reais. O suposto japonês e sua família faladeira descendo as escadas rumo ao trem, sem ter percebido. O pai apressou o passo, alcançou os asiáticos e foi devolver o rico objeto. Quanta confusão! Ninguém entendia ninguém! De Cristo Redentor, aquilo se transformou em Torre de Babel. Depois de uns cinco minutos sem entender ou conseguir se fazer entender, ele pegou a carteira, enviou no bolso do japa e deixou-os em seu blá, blá, blá... ou o quer que fosse aquela língua. Ela observara tudo de perto e aumentara sua admiração pelo herói. Ele deixa a varanda. Anda devagar pelo sítio, uma obra-prima que assina. Numa placa, ao lado do “jardim vertical”, uma prece espontânea escrito por ela: “Não tenha medo de seguir os seus sonhos.” Olha as serras, a estrada que leva à cidade. O sol vai esquentando aos poucos. Agacha-se ao pé da jabuticabeira. Filipe e a irmãzinha fazem o mesmo. Ficam ali os três, agachados, enchendo uma caixinha de jabuticabas. Ela, esquecida das frutas, mas interessadíssima nos bichinhos no solo. ___ Papai, por que Deus criou as formigas se elas são más e cortam as frutas? ___ Elas não são más, filha. Deus as criou porque todo ser vivo é importante, todos têm uma função aqui na Terra. E ele deixa-se tomar pela segunda paixão de sua vida, a botânica: elas atuam como jardineiras da natureza: escavam o solo, ajudam a ventilá-lo e espalham sementes. As formigas são insetos que vivem em sociedade. Essa é outra importância delas, filha: elas ensinam a gente a ajudar uns aos outros, a viver juntos, a colaborar. Você sabia que uma formiga consegue carregar um objeto com peso 100 vezes maior que o seu próprio peso? Não sabia. Mas está feliz com a explicação do pai. Esquece as formigas, chupa uma jabuticaba olhando agora outros seres vivos, as florzinhas de seu vestidinho verde. Gosta de ficar na cozinha, e, de lá, observar o ipê da rua de baixo. Ela se aproxima. Não diz nada, senta-se ao lado, encosta a cabeça no ombro dele. Fica ali, sorrindo, como se estivesse no Paraíso, como se ele fosse Deus. Ele tira o olhar do ipê, verte-o, levemente, à direita, em direção a ela e fica ali, sorrindo, como se estivesse no Paraíso, como se ela fosse Deus. Agora ela dorme. Ao lado do irmãozinho, os dois em pijaminhas azul e branco, 61