Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Seite 67

LiteraLivre n º 4
ela de barriguinha pra cima, braços abertos – deve ser para abraçar o mundo inteiro...; ele de bruços, a cabecinha sobre ela.
Agora ela dorme. Numa cama ali na rua Uberaba, 500, no Barro Preto. A invasão da massa asfixiando diante da degradação renal, a luta pela vida. Não difamou. Tentava comunicar-se. Quantas saudades!
___ Papai, por que Deus criou as formigas se elas são más e cortam as rosas que plantei lá na tia Jandira?
___ Não são más, filha. As formigas comem outros insetos e ajudam a manter o controle da mãe natureza. Você sabia que uma formiga rainha pode viver até 18 anos?
Deixa cair das mãos tremendo o porta-retrato, baixa a cabeça sobre a mesa.“ As formigas podem viver até 18 anos!”, pensa,“ e minha princesa se foi com 16...” E chora feito menino, feito ela no dia em que, saindo para a cerimônia de Primeira Comunhão, caiu café em seu vestidinho e ela achou que no mundo tinha acabado.
Respira fundo, lembra-se do som de sua risada. Como ela ria! Riu mesmo até no dia em que teve que raspar os cabelos, como se aquilo fosse só uma brincadeira, uma fantasia de carnaval. Um sorriso grande, um sorriso de anjo, o que veio anunciar a Deus, como quem sabe sua missão, como quem aceita. Agora ele ri também. Abre seu computador, digita a senha: G A B I – m e u a n j o. Escreve:“ Dia proveitoso. Muitas conquistas e ações positivas. Lembranças, lembranças e lembranças que nos fazem caminhar na direção do outro, a fim de justificar a nossa existência e tentar nos aproximar, noutra existência, das pessoas que já partiram, precocemente, pela vontade divina.”
Bem aventurada Gabi, que não difamou. Transfigurou.
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