Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Seite 65

LiteraLivre nº 4 Foi um Anjo que passou em sua vida. E seu coração se deixou levar. Reinaldo Fernandes Brumadinho – MG Abraçou-a novamente, apertou contra seu peito. Seus dedos correram-lhe os cabelos, sentiu seu cheiro de menina-moça de banho tomado há pouco. Beijou-lhe as faces. ___ Papai, eu te amo!, ouviu, e sentiu um aperto. Sentiu seus braços finos enlaçando-o. ___ Cuidado com a espinha! – ela o advertiu quando ele beijou-lhe a testa, como beijava sempre. E ela fez como sempre fazia: sentou-se numa cadeira ali perto, pegou seu livro da escola e ficou lendo, enquanto ele lia “Jardins Botânicos do Brasil”, de Evaristo Eduardo de Miranda, ilustrado com fotos de Fabio Colombini. Pai e filha na mesma sintonia, no silêncio vespertino da varanda. Da janela da cozinha, Fátima esquecia o bolo no forno e olhava embevecidamente a cena. Se o pai folheava, uma atrás da outra, as páginas do livro, a filha pouco ou nada lia. Quer dizer, não lia o livro, “lia” o pai. Seus olhos se prendiam cheios de amor no pai, observava-o, seu semblante calmo, suas feições gentis, seus olhos atrás dos óculos, apaixonado pela botânica. Admirava-o como se ela estivesse sentada na primeira fila de cadeiras do Santuário de Santo Expedito e como se ele próprio fora o santo: não olhava, contemplava. Ali estava seu herói, o homem de sua vida. O homem mais generoso, risonho, amoroso, legal, trabalhador e honesto do mundo, como escreveu um dia num acróstico em sua agenda. O conceito que fazia da honestidade do pai veio especialmente do dia em que foram ao Cristo Redentor, no Rio. Estavam superfelizes, era sua primeira vez na cidade e o Cristo estava cheio de turistas. E naquele vai-e-vem de tirar fotos na escadaria, um estrangeiro, japonês, talvez, deixara cair sua carteira. O pai, ela de braços abertos feito o Cristo posando para a foto, vira a carteira caindo de onde caiu, interrompeu a foto e foi pegá-la. No meio da confusão, 60